‘A’ João e ‘O’ Antonio, em noite de brilho( João Marcos Coelho)

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“Nossa, a João jogou o Antonio na sombra”, reclamava patrioticamente um cidadão no intervalo do concerto de sexta-feira (dia 9), na Sala São Paulo. De fato, ela não só subjugara o violoncelo de Antonio Menezes na Sonata n.º 2 como realizara uma das mais extraordinárias performances já presenciadas naquela sala, da Sonata Tempestade, opus 31, n.º 2, ambas de Beethoven. O público saiu levitando para o intervalo.

Ora – e o texto do programa do Festival de Inverno de Campos do Jordão nada clareou para o público em relação a isso -, não foi Maria João Pires, mas Beethoven quem pôs Antonio Menezes em segundo plano na primeira parte. Ele foi um dos primeiros a libertar o cello de uma postura secundária, mas isso só aconteceu a partir da Sonata n.º 3. Seu namoro com o cello começou em 1796, nas duas sonatas para “piano e violoncelo”, não o contrário.

Apenas 12 anos depois – como, aliás, ficou claro na segunda parte -, Beethoven escreveu a Sonata n.º 3. E aí sim alforriou o violoncelo da condição de mero papagaio de pirata do piano. Equilibrou as coisas. Brincou com os timbres e recursos de ambos em pé de igualdade. Concedeu longas frases ao cello, seduzido pela sua bela “voz” de tenor, imprimindo-lhe cantábiles acima do discurso do piano. O arrufo patriótico do espectador perdeu razão de ser, pois Antonio abriu a segunda parte com uma interpretação emocionante da terceira das suítes-solo de Bach.

Tivemos, portanto, dois tempos bem distintos, sempre com música a dois em elevadíssimo nível. Mas a centelha do momento único, o raro instante do gênio em ação – isso aconteceu de verdade na sonata Tempestade. Pequenina, Maria João transformou-se numa gigante ao mostrar uma concepção personalíssima da sonata de Beethoven que ganhou este apelido porque o compositor mandou Schindler, seu secretário faz-tudo, ler A Tempestade, de Shakespeare, em resposta à pergunta: qual é a ideia poética da obra? Ele remeteu a Shakespeare por causa da importância da música e seu papel decisivo na reconciliação final da peça.

Mas a sonata é mais do que isso. Ela também foi chamada de “sonata que fala”, por causa do motivo inicial do Largo, um acorde arpejado que parece anunciar um recitativo, como numa ópera, segundo a pesquisadora Elisabeth Brisson. Pois a João eletrizou o público com um toque quase falado de tão expressivo (sobretudo na mágica execução do adágio central, que também começa com um acorde arpejado). Por todo lado, ritmos pontuados, ricas ornamentações em forma de recitativo, plenitude sonora de acordes sucessivos, contrastes abruptos, intensa dramaticidade e exploração dos graves do piano. O Allegretto final estabelece um movimento perpétuo, fluxo contínuo à la Bach. Detalhe diferencial da performance de Maria João Pires: o uso surpreendente do pedal de ressonância, fazendo entrelaçar-se os harmônicos, em admiráveis efeitos. Naqueles 20 e poucos minutos, Beethoven estava entre nós.

Publicado no Estadão em 15 de julho de 2010



16 julho, 2010 às 18:44

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Categoria: Artigos

Comentários (1)

 

  1. Osmar disse:

    Que maravilha, Mafra !!!

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