A República destroçada ( Marco Antonio Villa) – comentários do blog sobre artigos inúteis

Mais um artigo sobre corrupção , publicado no Estadão deste domingo, dia 30 de outubro. Uma indignação controlada demais. Todas as palavras medidas, parece medo à flor da pele. Desse tipo temos às dúzias para cada semana. O leitor não descobre novidade alguma. O efeito, na minha opinião, é o contrário do pretendido. Essa choradeira acomoda, leva à inação. Muito melhor o autor procurar um advogado  e perguntar até onde pode ir sem um processo, embora a esta altura ninguém acusado de ser ladrão queira entrar nessa, a de processar pessoas. Muito mais importante são as declarações pelos jornais dizendo-se vítima de armação política. Os políticos não querem ficar em evidência quanto às acusações de roubo, mesmo que saibam que o autor da denúncia não vai conseguir provas. Para escrever dessa maneira é melhor ficar quieto.
Mais comentários no próprio texto do artigo:
Marco Antonio Villa ( professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR)  – O Estado de S.Paulo

Em 1899 um velho militante, desiludido com os rumos do regime, escreveu que a  República não tinha sido proclamada naquele mesmo ano, mas somente anunciada.  Dez anos depois continuava aguardando a materialização do seu sonho. Era um  otimista. Mais de cem anos depois, o que temos é uma República em frangalhos,  destroçada.

Constituições, códigos, leis, decretos, um emaranhado legal caótico. Mas nada  consegue regular o bom funcionamento da democracia brasileira. Ética,  moralidade, competência, eficiência, compromisso público simplesmente  desapareceram. Temos um amontoado de políticos vorazes, saqueadores do erário. A  impunidade acabou transformando alguns deles em referências morais, por mais  estranho que pareça.

blog: Quais ? Um, ou dois exemplos, por favor. 

 Um conhecido político, símbolo da corrupção, do roubo de  dinheiro público, do desvio de milhões e milhões de reais, chegou a comemorar  recentemente, com muita pompa, o seu aniversário cercado pelas mais altas  autoridades da República.

blog : Quem foi ?

Vivemos uma época do vale-tudo. Desapareceram os homens públicos. Foram  substituídos pelos políticos profissionais. Todos querem enriquecer a qualquer  preço. E rapidamente. Não importam os meios. Garantidos pela impunidade, sabem  que se forem apanhados têm sempre uma banca de advogados, regiamente pagos, para  livrá-los de alguma condenação.

blog: Vamos dizer logo que também compram os juízes! Uma das causas de tudo que está acontecendo, está nesse medo de dar o nome aos bois. O autor do artigo não percebe que é cúmplice quando omite um dado tão importante.

São anos marcados pela hipocrisia. Não há mais ideologia. Longe disso. A  disputa política é pelo poder, que tudo pode e no qual nada é proibido. Pois os  poderosos exercem o controle do Estado – controle no sentido mais amplo e  autocrático possível. Feio não é violar a lei, mas perder uma eleição, estar  distante do governo. O Brasil de hoje é uma sociedade invertebrada. Amorfa, passiva, sem  capacidade de reação, por mínima que seja. 

blog: Por que ? Vamos dizer logo: o povo brasileiro não consegue reagir porque já foi corrompido. Também quer roubar se uma oportunidade lhe for dada. O problema é muito mais profundo do que o autor do artigo mostra. Toda a sociedade está completamente podre. Todo brasileiro tem um preço, é isso, meu caro.

Não há mais distinção. O panorama  político foi ficando cinzento, dificultando identificar as diferenças. Partidos,  ações administrativas, programas partidários são meras fantasias, sem  significados e facilmente substituíveis

blog: Sempre foi assim, não está acontecendo agora. Partidos, a não ser o Comunista, nunca tiveram programa algum.

O prazo de validade de uma aliança  política, de um projeto de governo, é sempre muito curto. O aliado de hoje é  facilmente transformado no adversário de amanhã, tudo porque o que os unia era  meramente o espólio do poder.

blog: Nada disso tem importância. O autor está querendo que vivamos em um país civilizado. Tudo isso já existia antes da podridão total a que chegamos.

Neste universo sombrio, somente os áulicos – e são tantos – é que podem estar  satisfeitos. São os modernos bobos da corte. Devem sempre alegrar e divertir os  poderosos, ser servis, educados e gentis. E não é de bom tom dizer que o rei  está nu. Sobrevivem sempre elogiando e encontrando qualidades onde só há o  vazio.

Mas a realidade acaba se impondo. Nenhum dos três Poderes consegue funcionar  com um mínimo de eficiência. E republicanismo. Todos estão marcados pelo  filhotismo, pela corrupção e incompetência. E nas três esferas: municipal,  estadual e federal. O País conseguiu desmoralizar até novidades como as formas  alternativas de trabalho social, as organizações não governamentais (ONGs). E
mais: os Tribunais de Contas, que deveriam vigiar a aplicação do dinheiro  público, são instrumentos de corrupção.

blog: Isso mesmo. Vamos dizer assim : No Brasil os juízes são ladrões. Fica melhor.  

E não faltam exemplos nos Estados, até  mesmo nos mais importantes. A lista dos desmazelos é enorme e faltariam linhas e  mais linhas para descrevê-los. A política nacional tem a seriedade das chanchadas da Atlântida. Com a  diferença de que ninguém tem o talento de um Oscarito ou de um Grande Otelo. Os  nossos políticos, em sua maioria, são canastrões, representam mal, muito mal, o  papel de estadistas. Seriam, no máximo, meros figurantes em Nem Sansão nem  Dalila. Grande parte deles não tem ideias próprias. Porém se acham em alta conta.

blog: O autor está “viajando”, pinta um quadro melhor do que o verdadeiro. Os políticos não se têm em alta conta. Não estão nada preocupados com isso. Apenas querem o poder ( por ser afrodisíaco, por ter placa bonita no carro) e principalmente, para roubar. Olham uns para os outros e sabem que todos são ladrões se lhes derem oportunidade. Sabem que não prestam, que são ladrões pelos padrões reconhecidos universalmente, não ficaram loucos. O que lhes dá força, cinismo, é a impunidade. Entraram naquela : se todo mundo faz eu também vou fazer. 

Um deles anunciou, com muita antecedência, que faria um importante  pronunciamento no Senado. Seria o seu primeiro discurso. Pelo apresentado, é bom  que seja o último. Deu a entender que era uma espécie de Winston Churchill das  montanhas. Não era, nunca foi. Estava mais para ator de comédia pastelão. Agora  prometeu ficar em silêncio. Fez bem, é mais prudente. Como diziam os antigos,  quem não tem nada a dizer deve ficar calado.

blog: Continua tratando os políticos por um ângulo muito mais favoravel do que a realidade mostra. E quem foi esse ? Mas que medo!

Resta rir. Quem acompanha pela televisão as sessões do Congresso Nacional, do  Supremo Tribunal Federal (STF) e as entrevistas dos membros do Poder Executivo  sabe o que estou dizendo. O quadro é desolador. Alguns mal sabem falar. É  difícil – muito difícil mesmo, sem exagero – entender do que estão tratando. Em  certos momentos parecem fazer parte de alguma sociedade secreta, pois nós –  pobres cidadãos – temos dificuldade de compreender algumas decisões. Mas não se  esquecem do ritualismo. Se não há seriedade no trato dos assuntos públicos, eles  tentam manter as aparências, mesmo que nada republicanas. O STF tem funcionários  somente para colocar as capas nos ministros (são chamados de “capinhas”) e  outros para puxar a cadeira, nas sessões públicas, quando alguma excelência tem
de se sentar para trabalhar.

blog: Os ministros do Supremo também roubam, meu caro. A  capinha não tem a menor importância. Existem países com rituais muito mais impressionantes. O que faltou dizer é isso: ele ROUBAM

Vivemos numa República bufa.

blog: Sempre foi mais ou menos assim. Um país da A. Latina.  

A constatação não é feita com satisfação, muito  pelo contrário. Basta ler o Estadão todo santo dia. As notícias são  desesperadoras. A falta de compostura virou grife. Com o perdão da expressão,  mas parece que quanto mais canalha, melhor. Os corruptos já não ficam  envergonhados. Buscam até justificativa histórica para privilégios. O leitor  deve se lembrar do símbolo maior da oligarquia nacional – e que exerce o domínio  absoluto do seu Estado, uma verdadeira capitania familiar – proclamando aos  quatro ventos seu “direito” de se deslocar em veículos aéreos mesmo em atividade  privada.

blog: mas, e o nome dele ? Mas que medo ! Foi o Sarney, não ?

Certa vez, Gregório de Matos Guerra iniciou um poema com o conhecido “Triste  Bahia”. Bem, como ninguém lê mais o Boca do Inferno, posso escrever (como se  fosse meu): triste Brasil. Pouco depois, o grande poeta baiano continuou: “Pobre  te vejo a ti”. É a melhor síntese do nosso país.

Blog: Que chatice . Esse tipo de artigo é exatamente o que leva a que tudo continue do mesmo jeito. Caro professor, deixe de tanta indignação controlada. Isso é exatamente o que o país não precisa. Consulte um advogado antes, e veja se escreve com mais vigor. 

HISTORIADOR, É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS(UFSCAR)

 

 

30 outubro, 2011 às 02:00

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Categoria: Artigos

Comentários (2)

 

  1. Francisco Pompeu disse:

    Grande Mafra,
    Mandei o artigo do Villa para muita gente, mas, lendo seus comentários, achei que vc está certíssimo.
    Um abraço.

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