Analisando a psique dos corruptos no Brasil – Primeira Parte: Collor

( nota do blog: coloquei neste artigo um pequeno trecho da entrevista que fiz com Collor já publicado em 2010)Os caras-pintadas foram saudados como herois nacionais. Não tinham a menor idéia do que estavam fazendo, mas a mídia os colocava como altamente conscientizados. . 

1) A Revolução que derrubou Collor. Sem querer a revista acertou. Não foi um processo de impeachment mas uma revolução, já que simplesmente uma chusma de gatunos e alguns inocentes úteis rasgaram a Constituição. O mais hilário, ou o mais ridículo foi : ” O Brasil deu uma lição de democracia para o mundo!”, que se apregoava por toda a parte.  Assim somos nós, os brazucas. 

2) O estouro da quadrilha que tomou o Planalto. As quadrilhas sempre estiveram lá, muito antes de Collor, mas este tornou-se de uma hora para a outra o único ladrão brasileiro

Engraçado é que neste momento TAMBÉM temos uma quadrilha que tomou o Planalto. Já foram demitidos 4 ministros denunciados pela imprensa e outros tantos ladrões permanecem. Os novos ministros também vão roubar, sem dúvida. Agora, se os demitidos foram denunciados pela imprensa e não cessam as denúncias de outras corrupções quem é o responsável? A Dilma, é claro. Por que não se pede o seu impeachment ?  (AFINAL FORAM 4 MINISTROS ROUBANDO, SEM CONTAR OS SEUS SUBORDINADOS, acho que foi assim, não ?) Não se pede o impeachment da dona pela mesma razão porque não se pediu o impeachment do Lula no Mensalão: todos estão roubando. Não se trata de apenas um grupinho de amigos, desvinculados completamente de partidos, que é o tema deste artigo.

Existem muitos tipos de corruptos e isso confunde as pessoas. Por exemplo: Collor queria roubar e ao mesmo tempo fazer um excepcional governo. Sabia que havia medidas óbvias a serem tomadas que alavancariam o nosso desenvolvimento em nivel nunca visto desde Juscelino. Queria libertar o País, que estava numa camisa de força. Deixando de lado a bobagem de tentar acabar com a inflação usando mágica, usando um processo heterodoxo, as medidas que tomou em seu governo foram na maioria excelentes. Simplificando ao máximo, mas de maneira muito expressiva: deixamos a jecaria de olhar para uma garrafa de whisky importado como se fosse uma joia. Helio Jaguaribe, o mais respeitado expoente do PSDB naquela época disse: ” O maior presidente da República de todos os tempos, e é louco”.

Acredito que ele estava tão entusiasmado com a perspectiva de se tornar um verdadeiro heroi como presidente que não prestou atenção na tecnologia do roubo. Cometeu talvez por arrogância, ou seja lá o que for, um erro fundamental: era tudo para ele e sua turma. E pior, eram amigos, carinhas que o conheciam desde os seus tempos de rapazinho em Brasília. Na sua maioria não eram ligados em política, não pertenciam a partidos. 

O que Collor tentou pode ser feito em nivel de prefeitura de cidade pequena, mas jamais em nivel nacional. Assim, ele caiu do galho em um horroroso golpe branco, um impeachment ridiculamente inconstitucional. Não tinha apoio em lugar algum pois havia se colocado contra as mediocridades em geral: a  do Congresso, a dos estudantes, dos operários, Judiciário e tudo o mais. Achava-se onipotente. Durante o processo de linchamento a que esteve exposto não tomou a menor medida de defesa além de contratar advogado. Não acionou, como seria de se esperar ( até em países como os Estados Unidos), a Polícia Federal, e a Receita Federal, orgãos destinados a intimidar os adversários ameaçando expor suas podridões.

Um pouco antes das coisas ficarem muito dificeis, ele poderia ter negociado, aberto a roubalheira (principalmente nas Fundações – os fundos de pensão) para quem estava de fora, mas nada disso, ele permaneceu olimpicamente quieto, provavelmente em um processo doentio de auto-comiseração.Para dar um exemplo. Tenho um amigo que foi o encarregado do inquérito sobre sua mulher, Roseane, que presidia a LBA( Legião Brasileira de Assistência) que por tradição era presidida pela mulher do presidente da república.Pois bem, ele me contou que jamais recebeu um telefonema de Collor, nem para perguntar como estavam indo as coisas e nem para nada, nenhuma forma de pressão. E no inquérito meu amigo não encontrou coisa alguma que incriminasse Roseane, apenas constatou o óbvio, que ela era de uma mediocridade sesquipedal.

A Dora Kramer – que escreve maravilhosamente – criticou, tempos atrás, o Congresso atual, fazendo apologia do comportamento dos congressistas que derrubaram Collor. Comparou os de agora com os tais formidaveis do passado. Não dá para acreditar que a Dora, até hoje, não tenha compreendido o episódio do impeachment. Seus acusadores estavam entre os maiores ladrões que esse país já conheceu, Jader Barbalho, Orestes Quércia, Sarney,  e muitos outros. Homens completamente desmoralizados, e mais tarde, para completar o quadro, quem presidiu o processo de impeachment foi Ibsen Pinheiro, presidente da Câmara dos Deputados, um gatuno, mais tarde cassado junto com os anões do Orçamento.

Estive com Collor duas vezes na famosa “casa da Dinda”, nos dias finais que antecederam sua queda, e muito tempo depois, quando ele já estava solitário, evitado como um leproso. Era um homem muito articulado, considerava-se amigo de Brizola e estranhamente não atacava o PT, reservando sua raiva para o PSDB, que havia se recusado a participar de seu governo.

É possivel uma explicação para essa atitude: lutar árduamente para fazer um bom governo e roubar ? Sim, para mim Collor é esquizofrênico, tem duas personalidades. O homem que se julgava predestinado, o homem correto, e o ladrão.  Hoje ele me parece muito diferente. Eu diria que seu lado pior venceu.

Muito tempo atrás, depois de cumpridos os dez anos de inabilitação para cargo público, voltou como senador, e fez um discurso que durou 4 horas, contando tudo o que aconteceu na sua deposição. Todos os senadores ouviram de boca aberta, sem discordar. Até o Mercadante, que era líder do governo, teve a maior dificuldade para balbuciar alguma coisa. Aliás, não defendeu a sua queda, não conseguiu falar nada, apenas disse que não poderia concordar com Collor. Só isso. Não tinha argumentos.

Na época chegamos ao cúmulo do ridículo. Os adolescentes de cara pintada, traduzindo a desinformação da população indignada, faziam sua festa pelas ruas. Os congressistas, apoiados pelos jornais, disseram que havíamos dado uma lição de democracia ao mundo!!! Batemos todos os recordes de jequismo e patriotada. Enquanto rolava o inquérito eu estive com seu advogado, o brilhante José Guilherme Vilela. Ele estava mortificado com as sacanagens que o Congresso fazia, atropelando todos os prazos. Procedimentos que constitucionalmente deveriam durar 2 meses eram executados em 48 horas. Um espanto.

Muito tempo depois estive com o ex-presidente, na primeira entrevista pós-impeachment. Quase apanhei de meus colegas em Brasília que achavam que  entrevista-lo era prestigiá-lo. De uma hora para outra Collor havia passado a ser o ser o único ladrão brasileiro. Estranhamente todos os outros gatunos famosos haviam caído no esquecimento popular. E, sem dúvida,  naqueles dias da entrevista, ele ainda era muito diferente da atual horrorosa figura.

Vou colocar nesse espaço apenas duas perguntas que fiz, de um encontro que durou quase duas horas:

ESTADO: Presidente, de qualquer forma está presente para a população que o deputado Ibsen Pinheiro teve um papel de relevância em um determinado momento histórico. Talvez não estivesse habilitado moralmente a conduzir o impeachment de um presidente da República.

COLLOR: Isso é o que agrava ainda mais a situação. Exatamente esse fato, porque o povo hoje sente-se enganado. A juventude brasileira, aqueles que pintaram as suas faces para promover uma manifestação contra o meu governo, foi induzida em erro, e exatamente por aqueles que hoje estão acossados, não somente por denúncias, mas por provas de que existiu alguma coisa mais entre a presidência da Câmara e a comissão de Orçamento que a nossa vã filosofia poderia supor. Então a população, ao se sentir ludibriada, pede e espera uma palavra e uma explicação desses que conduziram todo esse processo de linchamento moral a que fui submetido. Aquele movimento acaba de ser desmascarado diante da opinião pública. Em algum momento aas pessoas podem refletir naquilo que vai em seu íntimo: “ Puxa! Mas é esse pessoal que cassou o Collor ?”

ESTADO: Sobre o senhor se diz que o seu comportamento nos últimos dias de governo, seu isolamento, e a atitude olímpica que manteve na adversidade não foram simplesmente fortaleza de caráter, mas distúrbio psíquico.

COLLOR: Olhe, eu acho que ultrapassar a prova a que eu fui submetido- sem registro na história política desse país- é uma demonstração de que, graças a Deus, eu consegui manter a minha estabilidade emocional, e sem cometer nenhum desatino, seja em relação às instituições e a vida nacional, seja em relação á minha vida pessoal. Eu acho que a melhor resposta é o fato de nós hoje estarmos aqui, conversando, passada, vencida, essa enorme refrega, já ultrapassado grande parte desse calvário a que fui submetido

Nota do blog: Tudo neste artigo é fantasia, trata-se de um roteiro para um filme

29 agosto, 2011 às 11:09

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Categoria: Artigos

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