Ann Coulter (desesperada): “Os Democratas não mudaram a mente de ninguém. Eles mudaram o povo” ; Artigo de Henry Kissinger sobre Obama e o Irã (comentado pelo blog) ; Os equívocos do alheamento das Forças Armadas ( general Paulo Chagas) ; A Canonização estatal de Marighella ( Felipe Melo)

DEMOGRAFIA É DESTINO

 

Os liberais se gabam por terem ganhado os corações e mentes da America como se, através de lógica e argumento, eles tivessem persuadido o povo a aceitar as suas idéias socialistas européias falidas.

Os democratas não mudaram a mente de ninguém. Eles mudaram o povo.

Mais brancos votaram em Mitt Romney esse ano do que em Ronald Reagan em 1980. Barack Obama perdeu vinte por cento dos votos dos eleitores brancos – a maior margem desde 1984.

Mas em 1980, os brancos eram 88% do eleitorado. Em 2012,  72%. Não apenas isto, o eleitorado não branco está muito mais Democrata do que era em 1980.

Se o mesmo país que votou em 1980 tivesse votado em 2012, Romney teria ganhado por uma maioria esmagadora se comparado a Reagan.

A maioria dos americanos não imagina que, décadas atrás, os Democratas instituíram um plano de longo prazo para transformar gradualmente os Estados Unidos em uma nação de terceiro mundo. O país se tornaria mais pobre e menos livre, mas os Democratas teriam uma maioria imbatível!

Com o ato de imigração de Ted Kennedy em 1965, nossa política de imigração mudou daquela que copiou a população étnica existente para outra que favoreceu estritamente  imigrantes sem experiência vindos do terceiro mundo. Desde 1968, 85% dos imigrantes legais têm vindo do que é chamado eufemisticamente de “países em desenvolvimento”.

Não podemos admitir cientistas da tecnologia da informação da Espanha fugindo de sua nação socialista em falência porque temos que dar espaço para o genro de um imigrante recente senegalês não qualificado, mas com grandes necessidades.

Os pais de  (1)Jonas Salk não estariam capacitados para imigrar para a America hoje. Mas a boa noticia é: os liberais ricos e homens de negócios desalmados não têm dificuldades em encontrar ajudantes de garçons, porteiros, jardineiros, e babas! (A quem eles pagam salários baixos, requerendo aos contribuintes compensar a diferença).

Se os yuppies tivessem que competir com os bem-educados imigrantes europeus, eles estariam mais preocupados com a questão da imigração. Tal como ela é, somente trabalhadores não qualificados, a maioria negros e latinos, são prejudicados por nossa política nessa área.

Porque imigrantes recentes não têm qualificação, eles chegam com sérias necessidades de assistência do governo. O desespero deles tem sido um enorme favor para o Partido Democrata.

Trinta e nove por cento das famílias dos que nasceram nos Estados Unidos recebem alguma forma de assistência do governo. Em contraste, 57% das famílias de imigrantes – imigrantes legais – conseguem assistência do governo. Nós não podemos fazer qualquer coisa a respeito da população nativa, porém, por quê diabos a America esta aceitando imigrantes que requerem apoio dos contribuintes?

Se vocês vêm para a America e imediatamente se servem da Assistência Social, por definição vocês não são imigrantes bem-vindos. Exceto como um eleitor para o Partido Democrata.

Nos últimos 40 anos, a população branca não hispânica da Califórnia foi reduzida a metade, de 80% para 40%. Enquanto isso, a população hispânica explodiu de menos de 10% para aproximadamente 40% – sendo a maioria, mexicanos pobres.

E com esta mudança, a Califórnia passou de um estado que produzia iniciativas anti-impostos, Richard Nixon e Ronald Reagan, para um que é absolutamente intocável pelos republicanos (veja (2)Meg Whitman e Carly Fiorina) e apenas apresentou a maior taxa de imposto de qualquer estado.

O mesmo aconteceu ou esta acontecendo em outros estados tais como Colorado, Novo México, Ilinois e Nova Iorque. Se o Texas nunca muda, os republicanos nunca irão ganhar outra eleição presidencial. Os dois maiores partidos políticos serão o Partido Democrático (3)Nancy Pelosi e o Partido Democrático(4) Chuck Schumer.

Os baixos impostos dos republicanos e filosofia de governo enxuto vão finalmente se tornar popular entre os esforçados hispânicos de hoje, mas não antes que a America esteja arruinada com as políticas socialistas promovidas pelos marqueteiros populistas  seduzindo estranhamente as pessoas pobres pelo mundo inteiro.

Não é que os imigrantes pobres pensam diferente do resto de nós sobre a maioria dos assuntos. Tente perguntar a um imigrante recente:

O que você acha do aborto? – É tirar uma vida.

O que deveríamos fazer com os criminosos?  – Trancafiá-los e jogar a chave fora.

 –Você apóia o aumento dos impostos?  – Não, o governo já toma muito.

– O que você sente a respeito dos funcionários fantasmas do governo com salários exorbitantes e ótimas pensões?  – Isso me irrita.

Você apóia o casamento gay?  – Definitivamente não.

– Em quem você vai votar?  – Nos democratas.

 

A maioria dos imigrantes recentes se opõe ao aborto, ao casamento gay e governos inchados. O problema é que as pessoas pobres e sem estudo – a base democrática – são facilmente induzidas pela demagogia a votar como tribos.

Uma pessoa branca pode votar em um republicano ou em um democrata sem ninguém dizer a ele, “COMO VOCÊ PODE VOTAR CONTRA A SUA RAÇA?” Mas é exatamente assim, a forma como os hispânicos e negros pobres são pressionados a votar nos democratas.

Notavelmente, o assunto número um que Obama tinha a seu favor esse ano não foram as suas políticas. A questão foi que a maioria dos votantes concordou com a declaração: Obama “se importa com pessoas como eu”. É assim que Hugo Chávez se elegeu.

Contrabandear hispânicos não vai ajudar os republicanos. Pergunte a (5) Gary Franks, Lynn Swann ou Michael Steele, se o fato de ser negro valeu para eles o voto dos negros.

Promover anistia não vai ajudar – pergunte a John McCain que ganhou mais ou menos a mesma percentagem de votos hispânicos que Romney ganhou.

Ou pergunte aos hispânicos da Califórnia, dos quais só quatro por cento se opõem às políticas republicanas de imigração. O principal problema deles com o GOP (Partido Republicano) é que eles acham que os republicanos são “os ricos”.

A única esperança é concorrer com outro candidato republicano atraente daqui há quatro anos – quando não estaremos em confronto com um presidente concorrendo ao segundo mandato** – e retornar nossa política de imigração a uma que ajude a America, e não apenas ao Partido do Bem Estar Social. (Welfare State Party)

 

**nota do blog:  Desde 1900, apenas os presidentes listados abaixo não conseguiram se reeleger:

George H.W. Bush lost to Bill Clinton in 1992.

Jimmy Carter lost to Ronald Reagan in 1980.

Gerald Ford lost to Jimmy Carter in 1976.

Herbert Hoover lost to Franklin D. Roosevelt in 1932.

William Taft lost to Woodrow Wilson in 1912.

 

1 – Jonas Salk:  médico epidemiologista americano, inventor da primeira vacina antipólio (vacina Salk).

2 – Meg Whitman:  executiva americana, presidente da Hewlett-Packard. Carly Fiorina: ex executiva americana  da Hewlett-Packard e AT&T e ex candidata republicana ao senado americano pela Califórnia.

3 –  Nancy Pelosi: política americana do Partido Democrata pela Califórnia na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos  e presidente da Câmara dos Representantes (primeira mulher a ocupar o    cargo), de 2007 a 2011.

4–  Chuck Schumer: senador americano pelo estado de Nova Iorque pelo Partido Democrata.

5 —  Não foram eleitos, ou reeleitos:   Gary Francks: político americano membro do Congresso por Connecticut, de 1991 a 1997. Único afro-americano de Connecticut no Congresso dos Estados Unidos;      Lynn Swann: ex-jogador de football afro-americano político republicano por Connecticut ;     Michael Steele: político americano, primeiro afro-americano do Comitê Nacional Republicano de 2009 a 2011.

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Irã deve ser prioridade imediata para Obama ( Henry Kissinger)

 

HENRY KISSINGER, THE WASHINGTON POST, É EX-SECRETÁRIO DE ESTADO DOS EUA ENTRE 1973, 1977,   (O Estado de S.Paulo)
Comentários em azul no próprio texto

Depois de uma exaustiva campanha eleitoral, o desafio para o presidente Barack Obama é encontrar uma maneira de impedir que o Irã continue seu programa nuclear militar. Presidentes de ambos os partidos declararam há muito que, para atingir esse objetivo, “nenhuma opção está previamente descartada”. No terceiro debate presidencial, ainda que com formulações distintas, falando em impedir uma “arma nuclear” ou a “capacidade de produzir uma arma nuclear” (Obama); ou um “Irã com capacidade nuclear” (Mitt Romney), os dois concordaram que essa é uma questão em que está em jogo o interesse dos EUA. Enquanto o Irã continua a ampliar sua capacidade de enriquecimento de urânio e a transportá-la para instalações subterrâneas, o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, estabeleceu abril como prazo final para uma reação. Nesse ambiente conturbado, que significado operacional deve ser dado aos objetivos dos EUA?  .    Tempos atras especulou-se sobre essa data limite. É interessante que Kissinger, sempre tão cauteloso, a tenha endossado.

Aparentemente, os EUA e o Irã vêm conduzindo negociações bilaterais – uma mudança em relação ao procedimento anterior, com base em conversas multilaterais. O histórico das negociações em torno do programa nuclear iraniano não é encorajador. Por mais de uma década, o Irã só fez protelar, primeiro com o chamado UE-3 (França, Alemanha e Grã-Bretanha), e então com o P5+1 (os países-membros do Conselho de Segurança da ONU, mais a Alemanha). Enquanto alternavam sinais de uma possível flexibilização com períodos de intransigência, os iranianos tratavam de expandir, ocultar e dispersar suas instalações nucleares. Se nenhum limite for imposto a esse processo, o progresso tecnológico do Irã dominará os acontecimentos. Mas em que estágio, e de que maneira, o Irã deve ser privado de uma capacidade nuclear militar? As inspeções da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica)continuam, mas estão desgastadas. A agência ainda não se recuperou dos tempos em que os seus relatórios tornaram-se políticos. Aconteceu durante o governo Bush-filho, nos momentos em que parecia que os Estados Unidos não tolerariam a bomba iraniana e queriam agir. Os seus antigos diretores, Hans Blix, e depois Mohammed El-Baradei, ganharam fama mundial por serem profundamente anti-americanos, e por diversas vezes enfaticamente ofereciam a esperança de que os iranianos agiam de boa fé. Neste momento, passada a fase mais aguda da interferência política, a Agência procura ser realista, e os seus relatórios apontam no sentido de uma farsa iraniana. Leitores interessados podem clicar em cima do título do artigo El Baradei ataca novamente

São três as etapas envolvidas no desenvolvimento de uma capacidade nuclear militar: um sistema de descarga ( mísseis), a capacidade de enriquecer urânio e a produção de ogivas. O Irã vem aumentando o alcance e o número de seus sistemas de mísseis desde, pelo menos, 2006. Sua capacidade de enriquecimento – que por muito tempo foi subestimada nos relatórios elaborados pela Agência Internacional de Energia Atômica – foi expandida para milhares de centrífugas (os aparelhos que enriquecem o urânio). O nível ultrapassa qualquer definição razoável de usos pacíficos autorizados pelo Tratado de Não Proliferação. O fim inevitável desse processo é uma arma nuclear.

Seria inviável determinar, como sugerem alguns, um ponto a partir do qual as negociações seriam abandonadas em favor de ações unilaterais. Assim que a quantidade necessária de material físsil é produzida, as coisas ficam mais fáceis: construir e equipar uma ogiva é um processo relativamente curto e tecnologicamente simples – e seria quase impossível detectar isso em tempo hábil. Esta é uma afirmação importante e típica de Kissinger. Somente ele traz essas novidades, o que o diferencia dos articulistas profissionais.

Se o que emergisse de uma década de esforços diplomáticos empreendidos pelos membros do Conselho de Segurança fosse uma linha vermelha tão ineficaz, o resultado seria uma proliferação nuclear essencialmente incontrolável por toda uma região já convulsionada por revoluções e conflitos sectários sangrentos. Assim, o Irã conquistaria o mesmo status da Coreia do Norte, com um programa nuclear militar na iminência de se tornar operacional. A diferença está nos objetivos dos dois países.  A Coréia do Norte, mesmo sendo dirigida por malucos, parece afastar-se, devagar , do desejo irrealista de unificar sob seu comando a península coreana. E uma guerra nuclear não interessa aos pragmáticos chinêses, que de uma certa maneira conseguem influenciar os norte-coreanos. O Iran é um caso de “guerra santa”. Querem, a médio prazo,  ditar as regras no Oriente Médio, e acreditam poder derrotar o Ocidente a longuíssimo prazo. Julgam-se predestinados a levar a palavra do profeta para todos os infiéis. Parece alguma coisa de Idade Média, mas é isso mesmo.

Os países com opção nuclear competiriam para reduzir o tempo necessário para completar sua capacidade. Ao mesmo tempo, países à mercê do poderio militar iraniano, mas sem uma opção nuclear, seriam levados a reorientar seu alinhamento político, aproximando-se de Teerã. As tendências reformistas que se manifestaram na Primavera Árabe seriam engolfadas por esse processo. O objetivo de redução global de armas nucleares, acalentado pelo presidente Obama, sofreria um golpe – talvez fatal. Estranho e, de alguma forma, um inesperado Kissinger. Obama não deveria ter sido citado. Reduzir o arsenal nuclear tem sido objetivo de vários presidentes americanos.

Cenários. Alguns argumentam que, mesmo no pior dos cenários, um Irã nuclear poderia ser contido com uma estratégia de dissuasão. No entanto, isso ignora as realidades imensamente dispendiosas, complexas e carregadas de tensão que marcavam essa estratégia na época da Guerra Fria, além de fazer pouco da inclinação apocalíptica da teocracia iraniana e da quase certeza de que várias potências regionais conquistarão sua capacidade nuclear, se o Irã o fizer. Kissinger viveu intensamente a Guerra Fria, tomou decisões, através de Nixon e Ford, que afetaram o mundo. Esse parágrafo poucos podem escrever com tanta autoridade.

A partir do momento em que um equilíbrio nuclear for forjado em condições em que as tensões não são mais puramente bilaterais, como na Guerra Fria, e envolvendo países ainda em desenvolvimento, cuja tecnologia para prevenir acidentes é rudimentar, a probabilidade de disparos nucleares aumentará dramaticamente. E somos levados a pensar que o Paquistão, um país atrasado, e a um passo de ter um governo totalmente fundamentalista, já possui a bomba.

É por isso que os Estados Unidos insistem em impor limites ao enriquecimento iraniano, restringindo o acesso aos elementos precursores de uma arma. Ao abandonar a exigência original de acabar com todo o enriquecimento, o P5+1 considerou que níveis de material físsil seriam compatíveis com os usos pacíficos autorizados pelo Tratado de Não Proliferação. Quanto mais alto o nível de enriquecimento, menor o tempo necessário para obter resultados militarmente aplicáveis. A opinião predominante é que o limite mais alto que seria praticável aplicar corresponde a um enriquecimento de 5%, e isso só se todo o material físsil que ultrapassasse esse teto fosse mantido em um lugar seguro, fora do Irã.

O tempo disponível para uma solução diplomática encolhe na proporção direta em que cresce a capacidade de enriquecimento dos iranianos e em que eles se aproximam de uma capacidade nuclear militar. Assim, o processo diplomático precisa chegar a um ponto de decisão. O P5+1 – ou os Estados Unidos unilateralmente – precisa estabelecer um programa preciso para reduzir o enriquecimento iraniano com prazos específicos.

Isso não implica em traçar uma linha vermelha autorizando qualquer país a optar pela guerra. Israel ??Por mais respeitosos que sejamos com os pontos de vistas de nossos amigos, a decisão final sobre a paz ou a guerra deve permanecer nas mãos do presidente. Muita estranha a afirmação.  Um presidente Liberal, inexperiente, e que já mostrou incapacidade para situar seu país no contexto mundial. Kissinger (judeu) agora parece estar dando motivos claros para ser detestado em Israel, uma história que começou na guerra contra os árabes em 1973. Por que negociar com um país que demonstra tamanha hostilidade e adota estratégias tão evasivas? Precisamente porque a situação é muito delicada. Pode ser que a diplomacia chegue a um acordo aceitável. Ou seu fracasso mobilizará o povo americano e o mundo. Isso deixará claro as causas do agravamento da crise, até o nível de uma pressão militar ou da aquiescência derradeira com um programa nuclear iraniano. Qualquer um dos resultados demandará o empenho em enxergar suas implicações últimas. Não podemos nos permitir outro desastre estratégico. Confuso. Qual foi o desastre estratégico ? A tolerância absurda de Carter na derrubada do Xá do Iran ? Alguma coisa ocorrida recentemente ?

Se o Irã demonstrar a disposição de se comportar como um Estado-nação, e não como uma causa religiosa revolucionária, e desde que aceite verificações, suas preocupações com segurança devem ser levadas a sério, incluindo um gradual relaxamento das sanções, conforme os limites estritos ao enriquecimento forem implementados e aplicados. Bem, é um tanto fora de foco a observação do Iran abandonar a “causa religiosa revolucionária” e se comportar como um Estado-nação. De que maneira poderia acontecer ?  Em 2011 estive em Teeran e constatei que o regime é muito, muito, impopular. A juventude tenta reagir a seu modo, mas, como vimos em 2009, sem alguma ajuda externa vai ser dificil derrubar os aitolás.   

Mas o tempo urge. É preciso fazer Teerã entender que a alternativa a um acordo não é simplesmente mais um período de negociações, e usar as negociações para ganhar tempo terá graves consequências. Uma diplomacia criativa, aliada a uma estratégia determinada, ainda pode ser capaz de evitar uma crise, desde que os Estados Unidos tenham um papel decisivo na definição de resultados aceitáveis. Um parágrafo que não diz nada.  Kissinger está com 89 anos de idade, é natural que de vez em quando não seja tão brilhante. Mesmo um pouco óbvio em alguns instantes, o artigo é muito melhor do que todos os que vemos rotineiramente em nossos jornais. Seu último livro,  “Sobre a China”  é excelente, carregado de humor, indispensável. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER –

 

 

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Os equívocos do alheamento das Forças Armadas   (general Paulo Chagas)

Caros amigos!

Diante da “virada da bandeira” protagonizada de forma auspiciosa e exemplar pelo Supremo Tribunal Federal e a maioria de seus Ministros, sinto-me motivado a voltar, mais uma vez, ao foco dos meus anseios de cidadão e de soldado, fazendo votos para que o sucesso e a proeminência conquistados pelo STF não sejam interpretados pelas Forças Armadas como mais uma razão para o silêncio, já que, na opinião dos tímidos, basta esperar, porque haverá sempre alguém para, antes deles, tomar a iniciativa e dizer e fazer o que é preciso.

Desde o fim dos Governos Militares, temos sido testemunhas do processo de afastamento voluntário dos militares da vida política nacional. Processo lógico e natural, após o período marcado pela ordem contrarrevolucionária de 1964.

A estratégia adotada foi a do silêncio, apostando no amadurecimento do pensamento político e da consciência popular sobre a importância das Forças Armadas para a Nação, não apenas durante tempos de exceção, mas em todas as épocas e circunstâncias.

Como consequência, as FA podem orgulhar-se dos elevados índices de prestígio e confiança que conquistaram junto à sociedade, em uma época em que impera a desonestidade, a corrupção, a impunidade, a compensação do crime, a malversação e a apropriação de recursos públicos, a ameaça à integridade e à soberania, entre outras enfermidades da moral!

Em contrapartida, com o passar do tempo, embora não tenham deixado de pensar o Brasil, transformaram o silêncio em receio de dizer o que pensam! Deixaram de ser protagonistas para aceitar a posição de plateia privilegiada, mas, sem direito a manifestação.

Mesmo sabendo que o prestígio oferece o respaldo da fé pública e que a democracia dá direito de voz a todas as correntes de pensamento, até mesmo aos que contra ela, permanentemente, conspiram, as FA ainda preferem manter-se alheias à atividade dos políticos e aos prejuízos que seu desregramento tem causado à Nação.

Como instituições e como segmento da sociedade, as FA têm direito à opinião e o dever democrático e constitucional de torná-la conhecida e de com ela contribuir para a segurança do Estado e para a construção da opinião pública, base de sustentação da democracia.

O silêncio prolongado, transformado em temor do contraditório e pretexto para não assumir as conseqüências da participação e da argumentação, tem como reflexo a baixa da autoestima, a desastrosa evasão dos quadros mais jovens e, até pouco tempo, o descaso de sucessivos governos para com o seu indelegável dever de prover os meios de guarda e de defesa da Nação.

A fuga do debate tem levado a graves equívocos, como o de aceitar, sem contestação, mentiras sobre um passado que até ontem era motivo de orgulho e comemoração. Ou como o de não defender e propalar a verdade histórica, como se dela não houvessem tirado ensinamentos e, pior, o de adotar uma atitude de vergonha desse passado, imposta pelos que, por fanatismo, ignorância ou inocência, levaram a Nação ao uso extremo do último de seus recursos.

A timidez tem levado as FA a pensar que a disciplina as obriga a segar e a ensurdecer diante da evidência do malfeito e a emudecer diante de ordens cujo cumprimento põe em dúvida a observação dos princípios que sempre nortearam as atitudes dos militares brasileiros e que, por via de consequência, deve exigir explicações, esclarecimentos e até argumentada contestação, tão ostensivos quanto a publicidade das ordens!

É equívoco grave permitir que a Nação imagine suas Forças Armadas divididas pelo tempo, separadas pela própria história, e desinteressadas pela garantia da liberdade democrática, desavergonhadamente ameaçada por atitudes imorais orientadas para inconfessáveis desígnios de poder total.

Continuo a entender, portanto, que as Forças Armadas não têm o direito de permanecer indiferentes, ausentes, tímidas e inertes diante do dever de defender a verdade sobre si próprias e os interesses da Pátria em todos os campos de atuação do poder nacional!

PChagas

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A CANONIZAÇÃO ESTATAL DE MARIGHELLA  ( Felipe Melo)

marighelapcdobAnistiar Carlos Marighella e chamá-lo de “herói” é, no mínimo, uma ofensa terrível a todos aqueles que perderam seus bens, sua saúde e, em última instância, suas vidas em virtude da sanguinária sede de poder das hostes marxistas.


“Todos nós somos guerrilheiros, terroristas e assaltantes e não homens que dependem de votos de outros revolucionários ou de quem quer que seja para se desempenharem do dever de fazer a revolução.”

Essa frase é bastante conhecida e mostra um pouco do caráter de quem a escreve: Carlos Marighella. Membro da Executiva do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que abandonou em 1966 por achar que o partido estava traindo o sacrossanto dever que todo comunista tem de fazer a revolução, Marighella fundou a Aliança Libertadora Nacional (ALN), um dos grupos mais cruéis da guerrilha marxista brasileira que atuou durante o Regime Militar (1964 – 1985). A ALN foi responsável por assaltos, sequestros, atentados a bomba e diversos assassinatos. Seu objetivo era claro: instaurar uma ditadura marxista-leninista em território brasileiro.

Ainda que ele mesmo se assumisse guerrilheiro, terrorista e assaltante, não é essa a visão que o governo federal tem. O Diário Oficial da União do dia 9 de novembro deste ano traz a seguinte portaria:

PORTARIA Nº 2.780, DE 8 DE NOVEMBRO DE 2012

O MINISTRO DE ESTADO DA JUSTIÇA, no uso de suas atribuições legais, com fulcro no artigo 10 da Lei nº 10.559, de 13 de novembro de 2002, publicada no Diário Oficial de 14 de novembro de 2002 e considerando o resultado do julgamento proferido pela Comissão de Anistia na 6ª Sessão de Julgamento da Caravana de Anistia, na cidade de Salvador/BA, realizada no dia 05 de dezembro de 2011, no Requerimento de Anistia nº 2011.01.70225, resolve:

Declarar CARLOS MARIGHELLA filho de MARIA RITA DO NASCIMENTO MARIGHELLA, anistiado político “post mortem”, nos termos do artigo 1º, inciso I, da Lei nº 10.559, de 13 de novembro de 2002.

JOSÉ EDUARDO CARDOZO
Somente isso já seria suficiente para causar uma profunda indignação em qualquer pessoa com mínimo conhecimento da nossa história. No entanto, o blog do Ministério da Justiça – um veículo oficial de comunicação desse órgão do Executivo – fez questão de colocar uma cereja nesse bolo: chamou Marighella de “herói da resistência à ditadura militar”.

A organização fundada e dirigida por esse “herói” foi responsável por bárbaros crimes. Em 22 de junho de 1969, por exemplo, guerrilheiros da ALN atacaram os policiais militares Guido Boné e Natalino Amaro Teixeira: a viatura em que estavam foi incendiada, e os ambos morreram carbonizados. Em outra ocorrência, datada de 3 de setembro do mesmo ano, o comerciário José Getúlio Borba, que trabalhava em uma loja de aparelhos eletrodomésticos, foi morto por guerrilheiros que reagiram a voz de prisão. E, ao contrário de serem casos isolados, essas ocorrências fazem parte da própria essência da bandeira que Carlos Marighella empunhou durante toda sua vida: a da ditadura do proletariado.

A alegação de que aqueles que pegaram em armas contra o governo militar objetivavam a “redemocratização” do Brasil é empulhação pura e simples, e todos estão cansados de saber disso. No entanto, o óbvio ululante se tornou hoje em dia do fruto de uma hermenêutica deturpada, o que gera uma visão distorcida das coisas. Essa lógica produz inferências interessantes: 1) o governo militar foi algo ontologicamente pérfido e vil; 2) o contrário do governo militar é a democracia; 3) se alguém lutou de alguma forma contra o governo militar, era porque só tinha em mente a “restauração” do regime democrático; 4) a luta armada só surgiu em face da violência do regime, e foi, portanto, tão-somente uma característica acidental (e uma reação legítima) da luta contra o governo militar.

Se não é suficiente interpretar os atos criminosos de Marighella e seus camaradas como o que realmente foram – ações cruentas e desprezíveis que visavam à transformação do Brasil em uma ditadura comunista –, então recorramos às próprias palavras de Marighella.

Quando o fundador da ALN rompeu oficialmente com o PCB, em 1966, alegou que o partido estava traindo os ideais revolucionários que herdara ao supostamente defender uma via pacífica de ação:

Em vez de uma tática e estratégia revolucionárias, tudo é reduzido – aberta ou veladamente – a uma impossível e inaceitável saída pacífica, a uma ilusória redemocratização (imprópria até no termo).

Parece não se ter compreendido Lênin quando em “Duas Táticas” afirma que “os grandes problemas da vida dos povos se resolvem somente pela força”.
Em outra parte, falando sobre a vitória, acrescenta Lênin que esta “deverá apoiar-se inevitavelmente na força armada das massas, na insurreição”, e não em tais ou quais instituições criadas “por via legal” e “pacífica”. [1]

A violência não era uma deturpação da oposição ao regime militar oriunda do medo e do desespero gerados pela repressão: a violência era a manifestação mais honesta e clara do espírito revolucionário. Marighella não apenas o admitiu claramente, mas invocou-o como um dos motivos pelos quais estava abandonando o PCB e seguindo um caminho próprio.

Ao fundar o Agrupamento Comunista de São Paulo, que depois se tornaria a ALN, Marighella deixa ainda mais evidente que a violência guerrilheira é a própria essência de seu afã revolucionário:

Pensamos sobre a guerrilha o mesmo que a Conferência da OLAS [Organização Latino-Americana de Solidariedade] quando, no ponto 10 de sua “Declaração Geral”, apresenta a guerrilha como embrião dos Exércitos de Libertação e como método mais eficaz para iniciar e desenvolver a luta revolucionária na maioria dos países latino-americanos.

Não se trata, portanto, de desencadear a guerrilha como um foco, como querem insinuar nossos inimigos, acusando-nos daquilo que não pretendemos fazer.

O foco seria lançar um grupo de homens armados em qualquer parte do Brasil, e esperar que, em consequência disso, surgissem outros focos em pontos diferentes do país. Se assim fizéssemos, estaríamos adotando uma posição tipicamente espontaneísta e o erro seria fatal.

Para nós, a guerrilha brasileira não terá condições de vitória senão como parte de um plano estratégico e tático global.

Isto quer dizer que a guerrilha exige preparação e que o seu desencadeamento depende dessa preparação. A preparação da guerrilha, coisa muito complexa e muito séria, não pode ser vista com leviandade. Tal preparação exige o adestramento do combatente, a coleta de armas, a escolha do terreno, a fixação da estratégia e da tática a seguir, e, por fim, o estabelecimento do plano de apoio logístico.[2]

A guerrilha não é, portanto, apenas um recurso extremo utilizado em casos excepcionais: para Marighella, “a guerrilha é a vanguarda revolucionária, o seu núcleo fundamental, e constitui o centro do trabalho dos comunistas e demais patriotas”. Não é possível revolução sem ação revolucionária, e esta se apóia essencialmente na violência. Mais adiante, escreve Marighella:

Precisamos agora de uma organização clandestina, pequena, bem estruturada, flexível, móvel. Uma organização de vanguarda para agir, para praticar a ação revolucionária constante e diária, e não para permanecer em discussões e reuniões intermináveis.

Uma organização vigilante, severa contra os delatores, aplicando os métodos de segurança eficientes para evitar que venha a ser destroçada pela polícia e para impedir a infiltração do inimigo.

Os membros desta organização são homens e mulheres decididos a fazer a revolução. Os comunistas de tal organização são companheiros e companheiras de espírito de iniciativa, livres de qualquer espírito burocrático e rotineiro, que não esperam pelos chamados assistentes, nem ficam de braços cruzados aguardando ordens.

Ninguém é obrigado a pertencer a esta organização. Os que a aceitam, tal como ela é e dela vêm fazer parte, só o fazem voluntariamente, só querem ter compromissos com a revolução.[3]
Não havia santos. Não havia inocentes. As coisas sempre, desde o começo, foram colocadas de maneira clara, claríssima: acreditamos na violência, abraçamo-la como um modus vivendi, deixamo-la penetrar em cada um de nossos poros e a ela nos entregamos de corpo e alma sem pressões, voluntária e deliberadamente. Em outro documento, Marighella repisa a defesa da violência:

As organizações revolucionárias que se dedicaram ao proselitismo no transcurso de 1968 não conseguiram avançar. A outra maneira do crescimento das organizações revolucionárias rejeita o proselitismo e dá ênfase ao desencadeamento das ações revolucionárias, apelando para a violência extrema e o radicalismo.

Foi esta a maneira que preferimos, por ser a mais convincente, quando se trata de derrubar a ditadura com a força das massas e através da luta armada, repudiando o jogo político das personalidades e grupos burgueses.

Quando utilizamos o método da ação revolucionária, os elementos que vêm às nossas fileiras só o fazem porque desejam lutar e sabem que não encontrarão outra alternativa entre nós senão a luta prática e concreta.

Sendo o nosso caminho o da violência, do radicalismo e do terrorismo (as únicas armas que podem ser antepostas com eficiência à violência inominável da ditadura) os que afluem à nossa organização não virão enganados, e sim, atraídos pela violência que nos caracteriza.[4]

Não havia perspectiva de nada parecido com democracia nas táticas, nas ações e nos planos estratégicos de Marighella. Ele não foi um lutador da liberdade, alguém que dedicou sua vida a uma causa nobre, elevada: Marighella foi um facínora, um homem que aspirava “à tomada do poder pela violência da guerra revolucionária”.

chandler

Cap. Charles Rodney Chandler, uma das vítimas dos “heróis” incensados pelo governo.

Anistiar Carlos Marighella e chamá-lo de “herói” é, no mínimo, uma ofensa terrível a todos aqueles que perderam seus bens, sua saúde e, em última instância, suas vidas em virtude da sanguinária sede de poder das hostes marxistas. Com esse gesto, o governo brasileiro indica perfeitamente quem deve compor o panteão de heróis da nação: “guerrilheiros, terroristas e assaltantes”, homens devotados ao coletivismo ditatorial, à supressão da liberdade, à perseguição, à barbárie, à morte, homens que pavimentaram com os crânios de inocentes seu caminho revolucionário.

 

Notas:

[1] “Carta à Executiva”, 1º de dezembro de 1966. In: Escritos de Carlos Marighella. São Paulo: Editorial Livramento, 1979, p. 93.

[2] “Pronunciamento do Agrupamento Comunista de São Paulo”, 1968. In: Escritos de Carlos Marighella. São Paulo: Editorial Livramento, 1979, p. 132.

[3] “Pronunciamento do Agrupamento Comunista de São Paulo”, 1968. In: Escritos de Carlos Marighella. São Paulo: Editorial Livramento, 1979, p. 133-134.

[4] “O Papel da Ação Revolucionária na Organização”, maio de 1968. In: REIS FILHO, Daniel Aarão; FERREIRA DE SÁ, Jair (Org.). Imagens da Revolução: Documentos políticos das organizações clandestinas de esquerda dos anos 1961 – 1971. Rio de Janeiro: Editora Marco Zero, 1985, p. 212.

 

Felipe Melo edita o blog da Juventude Conservadora da UnB.

 

22 novembro, 2012 às 19:33

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