As manifestações no Iran e a resposta de Obama

 

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Em 1956, os húngaros tentaram se libertar do império soviético. Foram para as ruas e fizeram uma revolução. A Rússia enviou os tanques, mas eles resistiram. O mundo inteiro acompanhava emocionado, parecia que eles não tinham a menor chance, mas os russos hesitaram, confundiram-se com a  possibilidade de que poderiam ter um país comunista independente. Afinal, Stalin havia morrido há apenas três anos, e Kruschev não queria mostrar a mesma truculência. Retiraram os tanques, enquanto deliberavam freneticamente sobre as consequências do fato único, desafiador. Os húngaros se julgaram vencedores, deliravam nas ruas de Budapeste, mas os russos decidiram que não era possivel, e voltaram com tudo. Apelos foram enviados para os Estados Unidos, suplicando para que os americanos viessem em auxílio de um povo desesperado por sua liberdade. O presidente Eisenhower não disse uma palavra, não se mexeu. Os húngaros foram esmagados, e mais tarde a CIA foi acusada de havê-los incentivado, de haver prometido um auxílio que nunca veio.

Bem, a posição americana ficou muito clara. Não interferiria na zona de influência soviética.

Cinquenta e três anos depois, e guardadas as imensas proporções, Obama está sendo acusado de ter ficado inerte,  de não  haver ajudado os iranianos em suas violentas passeatas contra a fraude eleitoral. De fato, foi um pouco tímido em suas declarações iniciais, mas, depois de alguns discursos zangados dos republicanos, ele declarou, dentro do jargão diplomático,  que " o mundo está chocado e indignado" com as agressões aos manifestantes. É o suficiente. Ele não pode, e não deve, fazer mais nada. Precisa  estar em uma posição tranquila com respeito à não intromissão nos assuntos internos iranianos. Obama precisa ser fundamentalmente tático. Sua prioridade é para o gravíssimo fato de que um país governado por fanáticos pode construir a bomba atômica. Ele sabe – foi avisado por Benjamin Netanyahu – que Israel não vai permitir um Irã com armas nucleares. Na hora em que tiver que concordar com uma intervenção militar israelense, ou mesmo americana, Obama não poderá ser acusado pelos eternos inimigos dos Estados Unidos, inclusive a Europa (Eurábia),  de haver tentado insuflar os iranianos que foram para as ruas. Precisa estar com as mãos absolutamente limpas. Não pode se arriscar a perder sua autoridade. E o seu vice-presidente, Joe Biden,  já afirmou, nessa segunda-feira, 6 de julho, em entrevista ao programa ‘This Week" da rede de Tv ABC que os Estados Unidos não vão ficar no caminho de uma ação militar de Israel : "Não podemos dizer o que outra nação deva , ou não, fazer" . Biden , é claro, está em sintonia com Obama.

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Os analistas, em sua maioria, concordam em que  mesmo com a vitória do candidato moderado a bomba ainda seria proridade no Irã. A questão é interessante. O diálogo seria melhor com Mir Houssein Moussavi, mas a clareza moral que se tem hoje, com o perigosíssimo Ahmadinejad ameaçando exterminar Israel, negando o Holocausto, colocando em dúvida o atentado às torres, afirmando com infantil sinceridade que o "Irã está pronto a assumir o vácuo de poder que vai ser criado com a saída americana do Iraque", pode levar o governo israelense a justificar com mais facilidade um bombardeamento das usinas atômicas do que com outro presidente, ainda que  pró-democracia e sem a obsessão pelo confronto. Moussavi, no plano interno, teria metas reformistas, mas no plano externo precisaria mostrar dureza quanto às aspirações de um Irã nuclear. E a bomba atômica é provavelmente desejo de todo o povo iraniano. É a afirmação de um país.  São problemas dessa ordem que estão na cabeça dos israelenses.  Muitos políticos em Israel devem achar que tanto faz Moussavi ter sido derrotado, mesmo porque existe alternância de governos, e os radicais poderiam voltar a qualquer momento sem que progressos substanciais no sentido de salvaguardas para Israel pudessem ter sido feitos.  A verdade é que enquanto os aitolás forem os donos do poder, enquanto a última palavra for religiosa, Israel corre perigo. Dessa forma, existe o risco de o governo israelense apresentar um "faits accomplis" para os Estados Unidos. A hora H, do dia D, será o momento em que não houver mais dúvidas de que o Irã está a um pequeno passo da bomba e que o governo continua nas mãos de Ahmadinejad. Afinal, Netanyahu foi eleito para isso. No entanto, é possivel que o bombardeamento das usinas iranianas possa ter em contrapartida grandes concessões israelenses com respeito aos palestinos. É provavel que, nesse sentido, haja uma pressão mundial nunca vista até agora. Para o Irã, lançar foguetes com bombas convencionais contra Israel não vai adiantar muito. Eles vão ser derrubados pelos misseis Patriots. Mas, a humilhação iraniana pode ser a hora da verdade para Israel.  Bem, são conjecturas, não mais do que conjecturas.

Perdeu-se uma grande oportunidade, quando Bush invadiu o Iraque. Naquele momento Irã e Síria prostraram-se aos pés dos Estados Unidos, fazendo todas as concessões para inspeções, e tudo o mais que o governo americano quisesse. Esse importantíssimo fato caiu no esquecimento das pessoas. E não foi esquecido por acaso, mas em virtude do rolo compressor da mídia, que procura por todos os meios disfarçar que a ameaça militar continua sendo o que de mais importante existe contra países que apoiam o terrorismo. As notícias são dadas no momento, nunca reapresentadas com comentários.

Em virtude dos protestos da comunidade internacional à invasão iraquiana, e com um apoio relutante dentro de casa, devido à pressão dos american liberals, as mãos do presidente americano ficaram amarradas e ele não pôde desmantelar a planta atômica iraniana, ou conseguir compromissos formais por parte da Síria.  Para tomar conhecimento do medo dos governos sírio e iraniano, e constatar o que representa para eles a ameaça de uma ação militar americana basta ler os jornais daqueles dias.

30 junho, 2009 às 05:18

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Categoria: Artigos

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