Cinéfilos celebram a volta da cultura no Iraque (Anthony Shadid- publicado no NYTimes)- comentário do blog

 

Para Obama foi melhor, ou pior, receber um Iraque sem Saddam Hussein ? A resposta óbvia deveria ser: CLARO QUE FOI MELHOR! , mas a lavagem cerebral anti-Bush não permite. Antes imperava a PAX Saddanesca, uma das mais crueis ditaduras do mundo, onde se cortava a língua dos xiitas que falassem contra o governo. Obama enfrentaria um Saddam com toda probabilidade de ser dono, OUTRA VEZ,  de armas químicas, o país teria se tornado um santuário terrorista, e por aí afora. Hoje: Saddam e sua turminha foram ENFORCADOS, seus filhos psicopatas morreram na invasão, e embora os atentados continuem, o Iraque tornou-se um governo democrático ao estilo oriental. O povo tem esperanças e possibilidade de um futuro. É muito, se comparado com o passado. (De fato isso não é o mais importante. O que interessa é o Iraque não representar um perigo para o Ocidente). Mas, tente levantar essa questão quando começarem a falar mal dos EUA em uma festa. Vai ficar bebendo o seu vinho lá no canto, sozinho. Não se incomode. Eles são parte da boiada, você não. Da próxima vez não faça o que eu disse e guarde sua opinião para você mesmo.

Leiam, mesmo que esteja marcado com o ranço do NYTimes:

O carpete era vermelho, mas puído demais para a fita ao redor de suas bordas fazer alguma diferença. Uma letra da marquise está desaparecida há anos, um pouco como a rua de lojas fechadas, meios-fios arruinados e intermináveis barricadas cinzas.

Mas, na noite de quinta-feira, um filme aclamado (iraquiano, aliás) voltou a uma cidade onde nenhuma película foi exibida nos últimos anos. Nos corredores do cinema na estreia de Filho da Babilônia havia tanta empolgação quanto alívio: a cultura – fina flor de poetas, músicos, escultores e pintores que por tanto tempo foram o orgulho do Iraque – pôde desafiar ocupação, guerra, negligência governamental e hostilidades para proclamar sua sobrevivência.

Pela primeira vez em um longo tempo – e dentro de um cinema outrora grandioso, com todos seus 1.800 lugares ocupados -, os iraquianos viram a si mesmos e a suas experiências no pós-guerra retratados num filme de outro iraquiano. “Quem pode imaginar Bagdá sem um cinema? O Iraque? Que pensamento doloroso”, disse Uday Rasheed, um diretor que apresentou o filme. “O Iraque sem cultura não é o Iraque”, depois acrescentou: “Isso é uma celebração.”

Filho da Babilônia é uma história pungente de um menino e sua avó procurando seu elo – o pai do garoto e filho dela – no tumulto das semanas após a queda de Saddam Hussein, em 2003. O pai do menino jamais retornou da Guerra do Golfo, de 1991, e sua busca os leva do norte curdo ao restante do país de língua árabe, onde eles encontram motoristas de caminhão, veteranos militares, clérigos e peregrinos no mesmo tipo de busca. Eles se aventuram por uma paisagem desértica, as vozes suaves abafadas por ventos uivantes, em que momentos engraçados se intercalam em cenas de valas comuns onde eles temem que o pai esteja enterrado.

O filme é o segundo longa metragem de Mohamed al-Daradji, um diretor de 33 anos de cabelos encaracolados e rosto adolescente, que saiu do Iraque em 1994 por nove anos. Mas, apesar da aclamação que levou à distribuição do filme em 10 países e convites para 75 festivais, na contagem de Daradji, seu filme ainda não havia sido exibido no Iraque.

Uma hora antes da exibição, multidões de artistas, estudantes e pessoas que geralmente ficam em seus redutos passaram por caminhonetes da polícia para lotar o saguão, que logo se encheu com a fumaça de cigarros.

Cartazes de A Hora do Rush e Godzilla ainda adornavam as paredes e as flores de plástico ao longo da escadaria acumulavam poeira. Mas havia um burburinho de curiosidade em assistir a um filme no Semiramis, um dos dois últimos cinemas de Bagdá.

Uma geração atrás, havia 68 salas, com nomes como al-Khiyam, Babylon e Sindibad evocando outra era. “Isto é um casamento”, disse Hussein Mutashar, um diretor de televisão. “É um casamento para o cinema iraquiano, é um casamento para a cultura iraquiana e é um casamento para a arte iraquiana.” Para outros, o filme era um resgate, com atraso, de seu passado recente. “Em cada casa, bairro, rua, em cada um de nós, temos nosso próprio filme”, disse o empresário Hashem Khalaf.

“Diretores em outros países procuram por anos para encontrar um filme. Aqui, é tão fácil. Filmes estão por toda parte.” Muitas produções de guerra sobre o Iraque não conseguem captar a paisagem do país. A vizinha Jordânia, onde Guerra ao Terror foi rodado, é um mundo distante dos cenários daqui, revolvidos pela guerra e o abandono.

Por virtude de nascimento ou localidade, Daradji nunca enfrentou esse problema. Ele se lembrou do que sentiu ao ver Bagdá, em 2003 – uma “cidade fantasma”. Em Filho da Babilônia todos reconheceram as cenas na capital, Nasiriya e Hilla, maltratadas pela guerra e abandonadas. O mesmo vale para os detalhes do filme: um olhar íntimo que captura nuances de nome e lugar, no qual soldados americanos da ocupação são anônimos e ameaçadores, como os iraquianos em filmes de Hollywood.

Olhar próprio. Mas, sentado num escritório derrubado antes da estreia, charmosamente relaxado enquanto oferecia água, café ou uísque a convidados, Daradji disse que a autenticidade era secundária para a mensagem que ele queria transmitir. O filme, disse, é um chamado a seus concidadãos. “Ainda vivemos numa cultura de violência e vingança”, disse ele. “Mas esse filme trata de justiça e perdão. Podemos perdoar quando temos o poder? Precisamos olhar no espelho quem somos.”

Daradji disse que o filme quase não foi feito. Para conseguir financiamento, ele abordou autoridades iraquianas – tanto curdas quanto árabes -, que fizeram objeções a personagens e mensagens. Alguns, disse, sabotaram seu pedido. Outros nem responderam. Ele acabou financiando o filme de US$ 1,5 milhão com dinheiro do exterior.

A produção também quase não foi exibida. Horas antes da estreia, Daradji pediu ajuda pelo telefone por achar que o projetor Victoria 5B de 1965 do cinema abafaria o som. Mas, durante seus 90 minutos de exibição, a multidão prorrompia em aplausos em alguns momentos viscerais, como quando a avó curda perdoa um soldado árabe do Exército de Saddam. Aplausos irromperam também quando o menino lavou o rosto de sua avó, antes de se aproximar da prisão onde esperavam que o pai estivesse. Quando as luzes se acenderam, metade da plateia, talvez, parecia estar chorando.

“Este é o Iraque real”, disse Ahmed al-Maliki, um estudante de arte. “Essas são as experiências que tivemos de viver e sofrer. Ele compreendeu a alma desse lugar.” Daradji absteve-se desse tipo de declaração. Mas, após tantos anos com iraquianos sendo retratados por jornalistas e políticos que escreviam suas narrativas, por vezes do exterior, ele disse que seu filme poderia oferecer uma voz onde antes não havia nenhuma.

“Quando a câmera de 33 milímetros se movimenta pela rua de Bagdá, isso significa que a nação existe”, disse ele, estendendo as mãos para frente. “Com o cinema, podemos nos mostrar para as pessoas daqui que existimos como nação e vivemos.” / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

30 abril, 2010 às 17:19

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Categoria: Artigos

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