Conversando com meu amigo Liberal sobre o desempenho das sopranos no artigo “Carisma, uma dádiva”, publicado pelo blog – outros assuntos

Meu caro,

Coloquei no blog artigo sobre carisma, de um articulista do NYTimes. Aproveitei e postei 5 vídeos: Callas, Netrebko, e Renne Fleming, cantando Casta Diva, e a pianista Hélène Grimaud ( citada no artigo como uma das carismáticas) tocando Liszt e Ravel. Das três sopranos achei que a russa fica em terceiro lugar. Engraçado é que a Renee Fleming atua muito mal porque a canção é triste e ela canta sorrindo. Notei uma pequena falha quase no final, mas a cascata decrescente de agudos ( não sei o nome) é magistral, insuperavel, melhor do que a Callas. E a voz da Renee Fleming é muito quente.

Resposta: 

Caro Van der Mafra: bela seleção. Ainda não ouvi a Grimaud, apenas as cantantes. Callas: realmente, renovou a interpretação operística, mulher de grande inteligência artística, certamente sabia muita música e tinha talento dramático.A voz: a alguns, não agradava muito. Considero-a voz muito original e com beleza quase exótica, muito difícil encontrar aquele som que reverbera como uma folha de zinco (não estou criticando, apenas dando uma sensação sonora que não consigo descrever senão me lembrar do zinco sendo carregado e sofrendo dobras). Netrebko: a voz é linda, tem boa técnica e não é uma interpretação ruim. O problema é saber se entende bem o italiano. Tem-se a sensação, em cantores modernos, de que têm um sumário conhecimento do que cantam…. mas gosto muito da moça.

Fleming: técnica apurada. Sobre rir, de fato não sei se se justifica. Envio-lhe a letra, para sua elucidação…  É uma requintada intérprete, com certo maneirismo, como a inspiradora, a Schwartzkopf. É uma escola de interpretação, bem diferente da italiana, por exemplo, do canto mais solto, sonoro, sem muita atenção às palavras individuais. Aqui está a letra de Casta Diva, para suas conclusões:
 
Casta Diva, Norma’s aria from Norma
Casta Diva, che inargenti		O pure Goddess, who silver
queste sacre antiche piante,		These sacred ancient plants,
a noi volgi il bel sembiante		Turn thy beautiful semblance on us
senza nube e senza vel...		Unclouded and unveiled...
Tempra, o Diva, 			Temper, o Goddess,
tempra tu de’ cori ardenti		The brave zeal
tempra ancora lo zelo audace,		Of the ardent spirits,
spargi in terra quella pace 		Scatter on the earth the peace
che regnar tu fai nel ciel...  		Thou make reign in the sky...  

Fine al rito : e il sacro bosco		Complete the rite : and the sacred wood
Sia disgombro dai profani.		Be clear of the laity.
Quando il Nume irato e fosco,		When the irate and gloomy God
Chiegga il sangue dei Romani,		Asks for the Roman’s blood
Dal Druidico delubro 			My voice will thunder
La mia voce tuonerà.			From the Druidic temple.
Cadrà; punirlo io posso.		He will fall ; I can punish him
(Ma, punirlo, il cor non sa.		(But my heart is unable to do so).
Ah! bello a me ritorna 			(Ah! Return to me beautiful
Del fido amor primiero;			In your first true love ;
E contro il mondo intiero...		I’ll protect you
Difesa a te sarò.			Against the entire world.
Ah! bello a me ritorna 			Ah! Return to me beautiful
Del raggio tuo sereno;			With your serene ray;
E vita nel tuo seno, 			I’ll have life, sky
E patria e cielo avrò.			And homeland in your heart.
Ah, riedi ancora qual eri allora,	Ah, return again as you were then,
Quando il cor ti diedi allora,		When I gave you my heart then,
Ah, riedi a me.)			Ah, come back to me.)
Caro,
 
Gostei muito de receber as explicações e a letra da ária. Sabia do tema geral da canção,mas não da letra mesmo.
 
Engraçado, nunca vi ninguém dizer que se criticava a voz da Callas, mas também não sou do meio. Eu tinha um primeiro vídeo dela, um que todo mundo comprou, e me parece, começava justamente pela Casta Diva. Foi quando descobri o significado das cantoras de ópera serem Divas, porque disse para você que a Callas era uma deusa e você me me apontou a palavra. Em seguida vinha alguma coisa maravilhosa, sendo que o decor havia sido feito pelo Luchino Visconti. Nesse momento eu ficava boquiaberto. Acho que é da Tosca, mas assisti no USA e não me lembro dessa passagem. Fiquei foi impressionado porque havia um tapete horrivel, moderno, lá no Metropolitan, absurdo para a época. Não consegui entender. Não sendo acostumado com óperas- fui descobrir alguma coisa quando morava na China – também me boquiabertei com o final, quando a Tosca dá um pulo para a frente e para o alto no suicídio e as luzes se apagam. A soprano é segura por algum fio invisivel, e o efeito é espetacular. Fiquei bobo. 
 
As vozes todas são lindas. Achei apenas que a russa é menos espetacular naquelas modulações feitas no fundo da garganta. Esse, eu acho, é o ponto forte da Renee Fleming. Também gostei do maneirismo a que você se refere porque era exatamente a palavra exata que me faltava. Ela (Renee) me pareceu muito pouco introspectiva, cantando claramente para o publico. Uma ressalva importante: o video que coloquei é numa pequena sala, alguma coisa mais descontraida e ela canta muito perto das pessoas. Acho que canta pela alegria de mostrar como domina a técnica, como canta bem. Bem, vou imprimir a letra e acompanhar as interpretações.
 
Outra coisa: todas as sopranos são lindas. O tempo das gordonas passou, imagino. E é dificil chamar aquelas gordas de Divas. A única explicação é que as pessoas ficavam hipnotizadas pelas vozes maravilhosas, não ? abraço

Outro e-mail que enviei em seguida: Acho que fiquei doido dizendo que a mulher canta rindo. Agora, por fim, vi a expressão dramática. Outra coisa: elas, imagino, devem ser riquíssimas. Mais do que merecido. Acho que isso se estende a todos que nos dão prazer nessa vida tão dificil. Acho bobo quando dizem que os jogadores de futebol ganham muito. Eu acho é que ganham pouco. No Iraque, em um momento mais ou menos dificil, quando o mercenário-bodyguard viu que eu era brasileiro, disse : Ronaldo! e depois para meu espanto, todo satisfeito com o seu enorme conhecimento : VIADO! com ótima pronúncia.  Sem dúvida Ronaldo é o homem mais famoso do mundo, junto com Obama. De fato, é o brasileiro mais famoso de todos os tempos, desde 1500, porque no tempo do Pelé a população mundial era muito menor.

Na fronteira da antiga Alemanha Oriental com a República Tcheca, depois de uma história muito comprida, eu tinha certeza absoluta que não me deixariam passar. Comunas, você sabe. O sujeito já estava de olho em mim há muito tempo, e quando chegou a minha vez, veio furioso até a janela do carro. No momento em que viu o passaporte brasileiro abriu um sorriso: “Romário, Bebeto, Roberto Carlos”. Só isso, e me mandou seguir em frente.
 
A respeito do que andamos conversando, eu realmente critico muito as regras de combate no Iraque e no Afeganistão. Os americanos estão sendo obrigados a usa-las por causa dos Liberais-Democratas, nos USA, mas tenho certeza que devo a minha vida a esse medo que as tropas têm de matar inocentes e depois irem para o banco dos réus. Fui muito imprudente em Bagdad e os poucos segundos que levaram para decidir se me obliteravam lhes deu a chance de perceber que eu não portava uma RPG, e sim uma câmera enorme ( pode ser igualzinho), e não queria destruir um carro de combate e apenas fotografa-lo. Nesses segundos que me deram eu poderia,  se estivesse com a arma, ter destruido o carro e matado dois ou três soldados. O chofer iraquiano, ao meu lado, depois dos gritos iniciais (que foram de puro reflexo), perdeu o fôlego completamente e não conseguia mais falar. Um soldado americano que vinha atrás em um caminhão blindado abriu a janela, colocou metade do corpo para fora, completamente possesso, e só não me bateu porque não me alcançava. Ficou apenas nos palavrões.

Ele me envia outro e-mail:

Por partes: o pulo da Tosca. Você sabe que era uma peça teatral, que Puccini imortalizou como ópera. Hoje, ninguém fala da peça. Pois bem, veio representá-la, no Rio, a famosa Sarah Bernhardt. Antigamente, colocava-se um colchão, para amortecer o pulo. E…e… no Teatro Municipal do Rio não puseram a peça. A moça se lançou e quebrou a perna. Como consequência, teve de amputá-la. É pura verdade.

Técnica: acho que você menciona, no final da ária da Fleming, um fantástico trilo (pelo Houaiss:  n substantivo masculino 

1 Rubrica: música.
tipo de ornamento que consiste na repetição rápida de uma nota alternada com uma próxima; quebro repetido; trinado, trino
2 modulação de voz; quebro
3 m.q. trinado (‘gorjeio’) )
Acho o supra-sumo da técnica. Em geral, só sopranos cultivam esse ornamento. A Bidu o fazia lindamente. A falecida australiana, Joan Sutherland, era também perita em trilos.
Sopranos bonitas: até nisso a Callas foi modelar. Gorda e feia, passou por feroz regime e se tornou esbelta. Não consta que fizesse ginástica… Recentemente, uma importante cantora, Deborah Voigt, foi banida de uma Ariadne auf Naxos na Inglaterra, por ser gorda. Foi um escândalo no meio. Pois bem, ela se decidiu por uma redução de estômago e, agora, é quase esbelta. É cantora principal do Met, mas eu acho a voz pobre. Mas tem muito prestígio.
Onde canta a Fleming? aquilo é parte de um DVD com uma excursão dela por São Petersburgo, com o barítono Dmitri Hvorostovsky, siberiano. NOTA DO BLOG:ele me enviou alguns vídeos que não coloco porque o artigo já está muito longo. Quem se interessar é só ir no Google porque os nomes estão todos aqui. Os ambientes são os castelos e palácios de lá, com toda a pompa. Sobre o barítono, é aquele que, no U-tube, na sequência, está ao lado dela, o cara de cabelo branco (apesar de ter só 50 aninhos…). Ele se lançou sensacionalmente ganhando, uns vinte anos atrás, o concurso internacional da BBC em Cardiff, país de Gales. E derrotou a prata da casa, outro grande barítono, o Bryn Terfel.
Sobre a russa, casou-se algum tempo atrás com um barítono uruguaio, de carreira europeia, o Erwin Schrott, e com ele tem um filho chamado… Tiago, nome lusobrasileiro, pois não existe em castelhano. Ele fez de caso pensado, acho porque começou a carreira no Brasil.

28 agosto, 2011 às 22:11

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Categoria: Artigos

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