Ilegais minam os EUA (Walter Rodgers)

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Caminhando pela costa arenosa dessa cidade muito afluente, topei com dois homens hispânicos revolvendo o lixo. Espantado com a vista, fiquei olhando a cena por alguns instantes. Um deles gritou para mim: “Agora você olha, mas daqui a 50 anos nós seremos donos de tudo isso!” Considerando o tsunami de imigração ilegal e a alta taxa de natalidade hispânica, eu respondi: “Acredito que sim.”

Estatísticas do Censo dos Estados Unidos sugerem que o homem que revirava o lixo estava certo. A Califórnia, hoje cerca de 37% latina, deverá ter uma maioria hispânica em 2042. Um quarto de todos os americanos provavelmente será latino dentro de 40 anos.

Essa tendência tem aspectos preocupantes. Imagine uma imensa e crescente classe baixa hispânica com um sentimento rancoroso e ardente de ter sido perseguida pelos “gringos”.

Eu testemunhei esse rancor de perto alguns dias atrás na Texas A&M International University, em Laredo. Alunos hispânicos me desafiaram, alegando que qualquer restrição à imigração ilegal através da fronteira meridional dos Estados Unidos com o México é uma violação de direitos humanos latinos.

Eu: “Vocês tentariam reentrar na Espanha sem passaporte?” Os alunos: “Claro que não.” Eu: “E na França, ou na Grã-Bretanha?” Os alunos: “Não.” No entanto, muitos desses imigrantes latinos ilegais sofrem a ilusão de que estão divinamente qualificados a colonizar os EUA – e não apenas os Estados que fazem fronteira com o México, mas Chicago e a Costa Leste também.

Alguns hispânicos falam abertamente de uma reconquista, um esforço para reclamar o Sudoeste americano que um dia pertenceu ao México.

Historicamente, esse conceito é impróprio. A maioria dos ancestrais de imigrantes hispânicos não possuía terras. Seus antepassados eram servos da Igreja Católica Romana, que já foi a maior proprietária de terras da América Latina e do mundo. Outros ancestrais trabalhavam como peões sem-terra para proprietários coloniais espanhóis, que mais tarde foram privados de suas terras por anglo-americanos no século 19.

A qualificação histórica é apenas um dos mitos que cercam a imigração hispânica ilegal. Os “gringos” têm suas próprias fábulas, como assimilação final numa grande sociedade de fala inglesa.

O professor Lawrence Harrison, da Tufts University em Medford, Massachusetts, observa que “na Califórnia, imigrantes mexicanos de quarta e quinta gerações ainda falam somente espanhol e resistem à assimilação”.

Ele diz que há barreiras culturais sérias ao velho conceito de caldo de cultura. “Palavras como compromisso e discordância, conceitos cruciais para a democracia americana, têm significados radicalmente distintos em espanhol”. Discordância, por exemplo, se traduz como “heresia”.

O mais alarmante é que o afluxo hoje de imigrantes latino-americanos pobres vem de países menos compatíveis com a democracia, com uma sociedade baseada na lei ou na educação pública.

Muitos especialistas olham com alarme para o fato de que, diferentemente dos primitivos imigrantes europeus e asiáticos, o tsunami do sul com muito frequência deprecia a educação infantil, porque muitos pais hispânicos se ressentem da ideia de que seus filhos terão melhor educação do que eles tiveram.

Em 2000, somente 25% dos imigrantes mexicanos homens em idade de trabalhar tinham segundo grau completo, um fato triste que contribui para uma subclasse cada vez mais volátil.

Uma imigração latina legal limitada enriquece os Estados Unidos. Eu vi pessoalmente como americanos hispânicos trazem qualidades tremendas de lealdade e liderança a nossas Forças Armadas.

Mas é moralmente vergonhoso esperar que os contribuintes financiem educação gratuita e atendimento médico a violadores da lei para que os americanos mais opulentos – donos de restaurantes, rancheiros, donos de agribusiness e empresas de construção – possam contratar mão de obra barata sem consideração pelas consequências nacionais.

Como sempre, é o rico passando o problema para o pobre. Com tantos americanos perdendo suas casas e desempregados, é ultrajante dizer que os hispânicos ainda aceitam os empregos que ninguém mais quer.

O Congresso, que geralmente representa os ricos, devia começar a impor multas enormes a americanos abastados que contratam ilegais. Comece com os milionários da minha vizinhança, que não cortam seus gramados nem pajeiam suas crianças, preferindo contratar para isso imigrantes que são quase certamente ilegais.

Os empresários são malucos se acham que abrir as fronteiras americanas para permitir o livre fluxo de mão de obra não educada tornará os Estados Unidos competitivos com a vibrante economia chinesa.

Os liberais americanos ingênuos precisam parar de vibrar com “Give me your tired, your poor, / Your huddled masses…” (“Tragam-me seus fatigados, seus pobres, suas multidões espremidas”, em tradução livre), de Emma Lazarus. A população mundial era de 1,5 bilhão quando ela rabiscou essas linhas. Ela agora se aproxima de 7 bilhões. Os EUA não são um lixão para o excesso de população do restante do mundo.

Cometer suicídio nacional não é coisa sem precedente. Os holandeses estão rapidamente perdendo seu país. Dentro em breve, suas maiores cidades pertencerão a imigrantes muçulmanos. O que será então da tradição liberal de Erasmo e da tradicional tolerância holandesa?

A imigração ilegal poderá acabar sendo mais ameaçadora ao caráter e aos valores dos EUA que qualquer ameaça de islâmicos radicais. Não se trata de tribo; trata-se da lei.

(O autor do artigo é ex-correspondente internacional sênior da CNN)

Publicado no Estadão em 1 de abril de 2010

1 abril, 2010 às 14:42

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Categoria: Artigos

Comentários (5)

 

  1. Ariane disse:

    Depois da magnífica bandeira do Tibete, este trapo podre… assim é a vida. Cuidado, Cláudio Mafra: nos Estados Unidos, graças a legislação aprovada pelos gaviões republicanos, o seu blog já estaria enquadrado, baseado na lei que tornou a bandeira nacional um símbolo sacrossanto.
    ARIANE

    • Claudio Mafra disse:

      Veja por outro ângulo: A única chance do Tibete voltar a ser livre está nos fatores combinados da chegada de uma semi-democracia na China e da vontade dos tibetanos apoiados na força do país do “trapo podre”.

  2. Ronaldo Veloso Romão disse:

    O imigrante que não assimila a cultura do país em que escolheu viver é um cretino!

    Conheço casos de brasileiros, que moram a mais de trinta anos em Massachusetts e, que nunca se deram ao trabalho de aprender o inglês. Isso é uma afronta, se você se dispõe a viver em um lugar deve respeitar as instituições formais e informais (habitos e a cultura) locais.

    Acredito que os imigrantes latinos, infelizmente em sua grande maioria, não agregam nada aos valores americanos, pelo contrário, apenas levem consigo os vicios da falta de ordem e ilegalidade latino americanos.

    Me parece que a razão perdeu sua força no mundo atual. Faltam lideres de visão no século XXI, lideres como Margaret Thatcher, Ronald Reagan e como o brilhante Wiston Churchill.

    Civilização Ocidental acorde! Antes que seja tarde demais.

    • Paulo Correa disse:

      Cretino é aquele que ignora as diferenças culturais dos imigrantes e tenta impor sua cultura, aliás muito rica por sinal: Simpsons way.

  3. CA. disse:

    Cretino é todo hipócrita que utiliza toda e qualquer argumentação sobre tal assunto para defender sua forma de pensar, sendo que na própria argumentação tem a essência que põe quem a utilizou na contradição.Acha pouco se os americanos não gostam que os imigrantes não aceitem a cultura americana.Então te aconslho a saber um pouco sobre paises como a Arábia Saudita, onde se você não pode nem sequer praticar a sua religião se ela é diferente da religião islâmica que predomina lá, por lei!

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