Interpretando Beethoven

Interpretando-Beethoven

Quando me formei na 4ª. série ginasial fui convidado para tocar piano na festa dos diplomas. Minha mãe escolheu o Adágio da Sonata ao Luar. Eu tratei logo de ouvir o disco do Claudio Arrau. Planejava imita-lo. Sabia que ele era bem lento, e pensei ser o caminho mais facil para valorizar o meu desempenho. Tocar bem devagar. Cronometrei o tempo da sua interpretação.Comparei com Horowitz, e com Kempff. Realmente lento, quase sete minutos, se me lembro bem. Contei a novidade para minha tia. Ela ficou entusiasmada, mas quando percebeu que era só o Adágio me disse :“O Adágio é muito fácil. Pensei que fosse toda a Sonata”. Depois se arrependeu: “ Ah, mas é muito bom você tocar o Adágio”. Eu fiquei sem graça. Quer dizer que era fácil? Percebi que ela não sabia do que estava falando. Eu ia INTERPRETAR o Adágio, eu não era um menino batucando no piano. Passei a estudar a peça com seriedade. A minha professora era tão feia que me prejudicava. Sua cara parecia com a de um porquinho. Ela também pensou que eu era mais um estudante bobo, tocando enfeitadinho em festinha de colégio. Eu sabia quem era Beethoven, e que execuções simples não queriam dizer que fossem fáceis. Eu ia abafar com uma tremenda interpretação, queria que fosse comovente, que percebessem o meu talento. Nos últimos compassos a mão esquerda fazia um grave muito bonito, repetindo o tema para chegar ao final. Achava que esse era o meu ponto alto e que todos ficariam impressionados. Minha mãe me corrigia quando eu tentava dramatizar, e mostrava que o ritmo seguia o mesmo, não sendo permitido por Beethoven as liberdades que eu estava tomando. Tudo estava na pauta e eu tinha que seguir a pauta. O que me deixava inseguro era o som que eu tirava, tão diferente do Claudio Arrau! Minha mãe me explicou que ele tocava em um piano imenso, de cauda, e que o nosso era pequeno, “de apartamento”.Ela disse que as cordas deitadas faziam a diferença para as cordas em pé. E, além de tudo, a afinação era outra. Mas, alguma coisa estava errada. Talvez fosse o pedal. Mas Beethoven também mostrava como ele deveria ser aplicado, o difícil era fazer como ele queria. Bem, naquela noite eu coloquei um terno, que havia custado muito caro para os meus pais, e fui tocar. O auditório estava cheio. A professora ficou ao meu lado para virar a página. Fui tocando lentamente, e o piano tinha um som ainda pior do que o da minha casa. Na metade do adágio comecei a ouvir um zum-zum na platéia. Descobri que estavam conversando! Estavam achando chato, os ignorantes ! A professora me disse baixinho: “Mais depressa”. Isso foi realmente o fim do mundo, a última coisa que eu queria ouvir. Mais depressa estragava tudo. Percebi que estava completamente deslocado com aquela platéia, um sentimento confuso se abateu sobre mim, por um instante me achei ridículo e pretensioso, mas ao mesmo tempo sabia que estava tocando bem, talvez a escolha errada, aquela gente, meus colegas, as mães e pais dos meus colegas gostavam de coisas mais simples. A partir daquele momento passei a duvidar da minha capacidade de adaptação ao que ainda estava por acontecer em minha vida.

Deixei o Claudio Arrau de lado e terminei logo, aflito para ir embora.

 

Coloquei para vocês 4 vídeos da Sonata ao Luar- primeiro movimento ( o Adágio)- com diferentes pianistas, desde Claudio Arrau, o mais lento, até Glenn Gould, incrivelmente rápido.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=i5vRRrhJdWg]

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=E10K73GvCKU]

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=r6YCSeeMN4I]

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=WD6pGV69fJI]

11 maio, 2009 às 18:58

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Categoria: Artigos

Comentários (2)

 

  1. Rodrigo disse:

    Que lembrança fascinante. Eu sempre me pego com lembranças assim, como quando ouvia Mozart antes de levantar.

    Quando criança e era motivo de piadas por achar Bach melhor que “New Kids on the block”, o que só é possível imaginar crianças falando.

    Acho que um pedaço da civilização fica para trás quando ignoramos a música clássica.

    abraços,

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