Maria João, pranto por Chopin( João Marcos Coelho)

Quando apareceu pela primeira vez, a palavra “recital” foi usada no plural, “recitals”. Liszt, o virtuose húngaro, faria “recitais” dia 9 de junho de 1840 em Londres. O verbo remete a “declamar”, “dizer versos”. Portanto, contar histórias. Pela primeira vez, o pianista assumia o papel de protagonista único. “Le concert c”est moi”, disse Liszt a respeito da fórmula que concebeu e até hoje vigora, engessada, nas salas de concerto. Pois anteontem Maria João Pires resgatou o espírito original de Liszt no segundo concerto da série Chopin 200 Anos, promovido pela Sociedade Chopin em parceria com a Sociedade de Cultura Artística. Em vez de empilhar aleatoriamente as peças, ela construiu dois “recitals”, narrativas com um ponto comum: em vez de soprar as velas de um bolo de aniversário para celebrar a vitória da vida sobre a morte, previsível nas comemorações de um aniversário de nascimento, ela optou por chorar sua morte, purgar a perda do gênio romântico.

Maria João não falou, mas mandou pedirem ao público que não aplaudisse após cada peça; aplausos, só no fim de cada parte. Ou seja, chamou-nos a participar do autêntico ritual fúnebre.

Mais de uma vez esta pianista notável já declarou sentir-se como pertencendo espiritualmente ao século 19. Seu coração, dedos e mente choraram a morte do compositor diante de nós. Na primeira parte, ela nos embarcou no Chopin de 1837, convocando o violoncelista russo Pavel Gomziakov para um arranjo de Glazunov do Estudo n.º. 7 do Opus 25. Avançou sete anos, para 1844, às vésperas do rompimento do compositor com George Sand, numa das mais pessoais leituras que já ouvi da terceira sonata, opus 58: tecnicamente perfeita, jamais padronizada. Inesquecíveis o pedal mínimo no escorreito scherzo, fazendo-nos enxergar (como no Allegro maestoso inicial e no Finale) insuspeitadas influências bachianas; o emocionante noturno no Largo, com pianíssimos quase absolutos, de tão tênues; e reassumiu a bravura do Finale, num discurso inovador.

Nesta sonata, Chopin abre-se para novos caminhos, que não chegou a trilhar por inteiro… por causa da morte, que ela pranteou de modo lancinante ao lado de Pavel, em A Gôndola Fúnebre, de Liszt.

Wagner. Os uivos de dor do cello foram imaginados pelo húngaro quase 40 anos depois da morte de Chopin, em 1883, quando pressentiu a morte de seu ídolo Richard Wagner. Terminada a primeira parte, o público, até então em silêncio, começou a aplaudir quase constrangido.

Na segunda parte, repetiram-se o percurso e o ritual. As duas mazurcas do opus 67 são fogos de artifício ambíguos, agridoces, aos quais ela aplicou um magnífico senso de rubato. Em seguida, a sonata para violoncelo e piano opus 65, de mais de 30 minutos. Escrita em 1846, integrou o derradeiro “recital” de Chopin, em 1848.

Aqui, Pavel revelou-se extraordinário, ao ajudar Maria João a mostrar que ela não deve ser tocada como se fosse de Brahms, por exemplo. É puro Chopin, e opera uma fusão de timbres inesperadamente bem-sucedida para quem escreveu tão pouco para qualquer outro instrumento que não fosse o piano. O final esfuziante caiu no silêncio pedido pela pianista, que atacou em seguida a derradeira mazurca, em fá menor, opus 68, n.º 4 – as últimas notas que Chopin pôs no pentagrama. De novo, arrepios congelaram o ar, e os aplausos mais uma vez cresceram aos poucos, porque o clima era mais de recolhimento e pranto do que propriamente de ovações

(publicado no Estadão em 7 de abril de 2010)

Esta peça foi tocada por Maria João no concerto em São Paulo

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8 abril, 2010 às 19:39

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Categoria: Artigos

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