23 / janeiro / 2012

Minha viagem ao Iran

- 05:38


O reporter desembarca na capital do Iran, Teeran, sem ter o visto para entrar no país. Está jogando com a sorte, porque a informação de que tudo poderia ser arranjado no aeroporto não é confiavel. Seu maior receio é que descubram que ele tem um blog onde frequentemente diz não entender porque as usinas atômicas iranianas ainda não foram bombardeadas, zomba dos aitolás, e comete o maior dos crimes: publica cartoons sobre Maomé. Este país, cujo regime é condenado por quase todo o mundo, está em permanente estado de alerta, enxerga espiões em toda parte, prende gente inocente, e o reporter sabe que esse é o último lugar que deveria visitar. Se o investigam qual sua defesa para as ofensas diárias ? Sem dúvida ele é culpado. O que está fazendo aqui ? Se detesta o regime islâmico porque veio para Teeran ? É um espião da CIA? O melhor que poderia lhe acontecer seria considerarem a sua viagem um desaforo. E tem mais: ele está chegando da Síria, um aliado iraniano, onde entrou disfarçado de turista, por mais estranho que possa ser um turista visitando um país à beira de uma guerra civil.

No aeroporto é tratado com uma grosseria que nunca viu em lugar nenhum. Ordenam que vá de uma sala para outra e sua tensão aumenta porque não sabe se estão procurando seu nome na internet. Finalmente lhe comunicam que vai receber o visto. Troca dólares, e o sujeito o trata como se fosse alguma coisa insuportavel. Quanto mais humilde, pior é a resposta. A relação entre o dolar e a moeda local, o ryal, é de 1 para 10.000. Pela nota de 100 dólares recebeu 1 milhão de ryals. O chofer do taxi também é extremamente hostil, que coisa mais esquisita, a impressão é a de que todos detestam os estrangeiros, ou será que se limitam aos ocidentais ? O carro é veloz, mas o aeroporto deve ser o mais distante da cidade que o reporter já viu, tão longe que deve estar ligado a algum problema militar. A viagem não acaba nunca. Quando finalmente entra em Teeran nada muda, o carro parece que jamais chegará ao hotel, a cidade é imensa. É tão grande que o reporter chega a pensar que nunca esteve num lugar assim. Londres pode ser enorme, mas existem edificios baixinhos, casas, e aqui não, são prédios de 10, 12 andares, e o taxi segue, e já que a gasolina é baratíssima o trânsito é infernal, e as motocas muito mais atrevidas do que no Brasil.
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Quando chega ao Hotel Homa ele paga os baratíssimos 250 mil ryals (25 dólares) combinados no aeroporto, nem olha para a cara do taxista, percebe que pelas suas costas o homem reclama porque não foi dada gorjeta, mas o porteiro uniformizado, a primeira pessoal gentil que encontra, logo pega as malas e o taxista fica falando sozinho. Na recepção não acham a sua reserva, dizem que os quartos mais baratos estão lotados e o empurram para outro, de 210 dólares por noite. A encenação de ser um turista começa: o reporter reclama da agência da África do Sul que não havia dito que as cidades de Isfahan, Shiraz, Persépolis, que são as mais visitadas, belos sítios arqueológicos, são tão longe da capital. É pura verdade. Os turistas viajam de outros países diretamente para esses lugares, deixando Teeran de lado. Por outro lado, começa a ficar claro para ele, cansadíssimo de sua viagem na Síria, e de entrar e sair de aeroportos, que realmente não pode deixar a cidade, alugando taxis, como fez em Damasco. E a solução é ficar passeando por alí mesmo.Por outro lado não pode ficar muito em evidência e para isso suas roupas não ajudam. São as mais ocidentais possiveis e o pior é o tenis branco. Por um momento chega a pensar em comprar sapatos e roupas menos vistosas mas um sentimento de repulsa ao que parece covardia o impede. O quarto do hotel é luxuoso e o tratamento muitíssimo correto. A chave eletrônica é toda escrita em persa e em inglês e leva a marca da Samsung. As grosserias do aeroporto ficaram para trás

Uma surpresa: quando pergunta (apenas por perguntar) se o hotel aceita cartões de crédito a resposta é afirmativa! O que ? Maravilha, mas o recepcionista adverte que apenas na parte da manhã os cartões funcionam. O reporter fica cada vez mais curioso. Com todas as sanções ainda existem os cartões ? E por que só de manhã ? Ele se lembra imediatamente de haver visto na TV, em seu quarto em Damasco, uma entrevista com o presidente da Google, que todo sorridente disse que os iranianos têm um incrivel natural talento para a cibernética e que são verdadeiros hackers. Será que tem a ver com os cartões de crédito? Quanto a haver retirado o seu blog da internet por 5 dias, a ineficácia da medida fica ainda mais clara.

A matéria sobre a Síria ainda não seguiu para o jornal e isso se torna outro problema. O reporter está farto de se deslocar de um lado para o outro e a internet do hotel está tão a mão! Mas ninguém é bobo, o hotel deve ser um dos lugares mais vigiados, talvez a internet também, mas não há o que fazer: é confiar em que os iranianos têm coisas mais importantes para cuidar, e afinal o papel de imbecil que ele fez na recepção do hotel ( um verdadeiro ator) pode ter sido seu passaporte definitivo para a impunidade. Ele  usa alguns truques para disfarçar o tempo que leva escrevendo. Quando pede ao rapaz da internet para imprimir, vem a pergunta:“Imprimir o seu trabalho ?” “Não, não é trabalho, é um relato de viagem para minha ex- mulher que mora na África do Sul”. E além de apagar o que já mandou para o jornal, ainda envia o texto para a cidade do Cabo. Hoje tudo parece um tanto excessivo, mas ele sabe que correu riscos, e não vai deixar que o tempo transforme a realidade passada.

Teeran é tão grande, 15 milhões de habitantes, que o reporter percebe imediatamente que está simplificando o problema do bombardeio das usinas nucleares. Entrar em guerra com esse país é muito mais complicado do que ele imaginava. A ação americana ou israelense precisa ser extremamente localizada, os efeitos colaterais muito bem equacionados e a reação popular deve ser gigantesca. Teeran não é Bagdad, e menos ainda Kabul, que parece uma favela. É muito mais desenvolvida, e em inúmeros pontos ainda guarda semelhança com o Ocidente, que vem dos tempos do Xá, derrubado em 1979 pela revolução islâmica. O que ele sente é que uma maioria, principamente de jovens, está dominada por uma minoria ínfima, os aitolás. Geralmente uma ditadura procura se perpetuar apenas para usufruir do poder, mas aqui trata-se de algo diferente: Os ditadores possuem uma ideologia profunda, e querem modificar toda a maneira de pensar dos iranianos. A diferença entre o que deseja o povo, e o que planejam os seus dirigentes, só encontra paralelo na antiga União Soviética, e seus satélites. Talvez seja ainda maior porque o cinismo ainda não chegou aos aiatolás. Eles realmente acreditam que o país, e o mundo, precisam ser governados segundo o Alcorão. É o marxismo exponenciado por ser algo que vem de Deus, que eles representam na terra
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Esta não é uma sociedade para apedrejar mulheres até a morte, cortar as mãos de ladrões e outras barbaridades. É óbvio que se trata única e simplesmente das leis impostas por uma república islâmica, da mesma maneira que os talebans no Afeganistão. O reporter, que também esteve naquele país, um lugar extremamente religioso, atrasado e pobre, pôde constatar que o regime seguindo a Sharia, foi odiado pelos afegãos. A expulsão dos talebans trouxe enorme alívio para todos. Muitas mulheres usam a marca registrada do país, a horrivel burka, mas os afegãos não querem que os mulás lhes imponham um modo de vida. Então, os iranianos, esses homens, essas moças, algumas muito bem vestidas, que circulam por Teeran poderiam ser perfeitamente de outro país. Nada em suas feições, em sua maneira de conversar, em seu comportamento, nem de longe sugere que possam apoiar o anacronismo cruel que tornou o Iran famoso. Os retratos dos aitolás estão por toda a parte, mas o reporter esperava ver mais expressões da ditadura pelas ruas da cidade. Não existem soldados, e em muitos lugares, principalmente nas lojas, foi tratado com muita naturalidade.

As mulheres são muito mais vestidas do que na Síria, ou Iraque, e existem em grande quantidade aquelas que andam em bandos, cobertas de preto da cabeça aos pés.Geralmente são as mais velhas, as vovós. A impressão é horrivel, parecem a Morte. Mas também existem as bonitinhas, as moderninhas, algumas lindas, mas, nem pensar em olhar para trás quando elas passam. Quando o reporter pegou um taxi de rua para voltar ao hotel foi uma viagem divertida pelos tremendos finos que os carros tiram uns dos outros e das motos. O rapaz ao volante ria muito, iniciou-se um diálogo com mímica e poucas palavras em inglês. Mas ele deixou de sorrir imediatamente, fechou a cara, quando o reporter apontou para três lindas mulheres e disse beautiful! O limite estabeleceu-se. Vamos brincar, mas nada de olhar para as mulheres dos outros. Esse trajeto do Museu Nacional até o hotel levou 35 minutos e custou 5 dólares, com direito a ver o rapaz bater numa moto, para grande divertimento do “turista” que não conseguia acreditar que fosse possivel chegar ao Homa sem um acidente. O simpatico motorista recebeu 2 dólares de gorjeta, na própria moeda americana. Em Teeran não existe problema em se usar o dolar.

No shopping do Museu Nacional, vendendo réplicas de peças famosas, duas mocinhas fizeram várias perguntas, riram muito e foram extremamente femininas. Um dos bons exemplos de que o recato islâmico – sem dúvida mais forte no Iran – continua muito longe do que desejam os barbudos que tomaram conta do país. O que parece ser uma regra absoluta, ao contrário da Síria, é todas cobrirem as cabeças. Quando o reporter pensou ter visto uma exceção, uma mulher bonita, vestido colado no corpo, e chegou mais perto, descobriu que usava o lenço de maneira diferente, mas ele estava lá.

No aeroporto a bagunça na chamada para embarque foi o ponto de contato entre ele e uma senhora com excelente inglês. Em poucos minutos estava falando mal do regime Começou dizendo que unicamente no Iran chamavam a classe econômica antes da business, e terminou dizendo que seu presidente era totalmente maluco. Criticou a falta de liberdade, sentia-se sufocada pelas regras islâmicas e assim por diante. Disse ter inveja do reporter por morar em um país ensolarado e democrático. O avião tinha o destino de Doha, no Qathar, de onde ela iria para a Arábia Saudita, e ele para a segurança da África do Sul.

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