Minha viagem para a Síria em momento crítico para o presidente Bashar Assad – (matéria completa, sem a edição feita pelo Estadão)

O mais difícil foi atravessar do Líbano para a Síria. Muitos sírios estão em fuga por essa fronteira, o posto de controle está nervoso e, mesmo eu tendo o visto, tive que sair do carro e passar por um interrogatório, com o chofer sendo o intérprete. De repente tive a impressão de que no meio da falação em árabe alguém usou a palavra press. Todo nervoso o rapaz virou-se para mim e perguntou em que jornal saiu a minha foto! O que ? Que press? Que foto ? Eu sou um funcionário aposentado do governo ! Ele se volta suplicante para o oficial e dispara a falar, mas agora parece que o sujeito se deu por satisfeito, está entediado, já trabalhou muito, e bate o carimbo no passaporte. Entramos no carro mas a alegria dura pouco. Logo outros soldados nos mandam parar. Agora é para a revista. Implicaram com a minha câmera e lá vou eu para a sala do chefão. Primeiro ela passa de mão em mão – estão encantados com o modelo –  mas o  sujeito atrás da mesa que ver as fotos. Quando comecam a aparecer as terríveis cenas de aniversário em família ele faz um gesto que já chega. Estou liberado definitivamente. Se fosse inexperiente e tivesse levado a formidavel lente zoom, top da Nikon, não engoliriam a minha história.
  
Sete dias e até agora não vi nenhum ocidental. Os hotéis estão vazios. Apenas alguns egípcios, jordanianos, libaneses aparecem de vez em quando no lobby do Cham Palace Hotel, em Damasco. Devem estar vindo acertar seus negócios, por via das dúvidas. Na praça principal a turma de Bashar Assad, no máximo umas cem pessoas, pendura uma enorme bandeira em um edíficio de seis andares, depois coloca para funcionar um som infernal, impossível de se aguentar e, aos berros, dançando e agitando bandeirinhas, mostra sua devoção ao lider. É dia de eleições ! Bashad resolveu democratizar o país ! A cena é ridícula. Os que estão andando pelas ruas não ligam a mínima. Eu gostaria muito de tirar algumas fotos, mas nem pensar.  A recepcionista do hotel me disse de maneira conspiratória que era uma péssima idéia sair com a câmera.
Damasco está calmíssima.  NOTA DO BLOG: APÓS A PUBLICAÇÃO DO ARTIGO UMA BOMBA EXPLODIU NA CIDADE (que azar do repórter!). Uns poucos soldados em algumas esquinas, e claro, a ditadura caricata: retratos de Assad em todos os lugares. A agitação se restringe aos alegres frequentadores de  bares e cafés nas ruas super movimentadas. Deixando de lado o fato de que eu sou o único turista na Síria, ( não estou brincando), e provavelmente o único reporter (todos ficaram em Beirute) ,o resto parece perfeitamente normal.  Belas mulheres desfilando em grupos, com namorados ou mesmo sozinhas. O lenço, ou echarpe, que usam cobrindo a cabeca, ao contrário da função – que é evitar o desejo nos homens – funciona ao contrário. O lenço emoldura o rosto, ressalta os belos olhos que é uma característica da raça e,  somado à maquiagem muito bem feita, só faz a gente querer ficar o mais pertinho possível delas. Nada mais sexy do que uma dessas beldades de lenço branco e óculos escuros dirigindo um luxuoso 4×4.
No fabuloso mercado da Cidade Velha um jovem comerciante que encontro pela quarta vez, finalmente desistiu de me vender alguma coisa e sou convidado para tomar chá dentro da loja. Resolveu desabafar. Diz que todo mundo na praça é da polícia ou participa de alguma forma do governo. Afirma que muitos militares já mudaram de lado, inclusive um general. Está confiante em que o regime vai cair.
Uma das sanções econômicas muito pouco noticiada, mas que afeta radicalmente o turismo, é a impossibilidade de se usar cartões de crédito. Foi uma surpresa desagradável porque só posso pagar usando os dólares que trouxe. Uma das moças do hotel ainda me aconselhou a tentar o banco Audi, que é privado, mas não deu certo. Muito pelo contrário, um sujeitinho de paletó gravata e colete se aproximou e pediu para ver o meu passaporte. Fiquei com raiva respondi que estava no hotel e fui andando, puxando conversa com um funcionário do banco. O cara da polícia sumiu. Sem dúvida o regime está balançando. Os ratos já devem estar pensando em abandonar o navio.
Gostaria de saber por onde anda Asma Assad, a linda e elegantíssima mulher do ditador.  Já pude ver que é acusada de ter se ocidentalizado e viver em Londres. Duvido muito. Ela deve estar aqui mesmo. Na Síria Airlines pude ver o retrato do casal em férias, com dois filhinhos.  Os que desejarem conhece-la cliquem em cima do título do meu artigo: A mulher do presidente Bashar AssadQuem tem uma dona desse quilate não pode ser de todo mau.

As pessoas tentam ficar de bico calado quando eu faço alguma pergunta, mas pode-se perceber pelo pouco que murmuram, que a imensa maioria quer ver Assad pelas costas. O pobre guia, que me mostrava o anfiteatro romano em Basra, revoltado pela total ausência de turistas, não teve o menor problema em me dizer que o ditador está destruindo o país. Os sírios podem ver pela televisão o que está acontecendo em Homs, e assitiram a reviravolta nos países árabes vizinhos. Parece que é impossível controlar a TV. Para ajudá-lo compro por dez dólares cincos moedas antigas (muitíssimo bem falsificadas) dos tempos dos romanos, persas e gregos. Aceito como verdadeiras e finjo acreditar que as surrupiou enquanto acompanhava as escavações -agora totalmente paralisadas –  realizadas por poloneses, alemães, suiços e franceses. Não deixo de pedir desculpas pelo preço baixíssimo que paguei, mas ele sabe que estou com poucos dolares.

Quando deixo Basra,voltando para Damasco, o chofer diz que no dia anterior houve uma grande queima de pneus, com muitos rebeldes correndo e fazendo quebra-quebra pelas ruas da cidade. Realmente, eu posso ver os estragos. Alguns pneus ainda soltam fumaça. As escolas estao fechadas, as farmácias, quase todo o comércio. O meu amigo não parece assustado. Feito todo mundo está esperando para ver o que vai acontecer. Mas sua mulher tem medo e já telefonou duas vezes perguntando se tudo está bem. Basra fica distante apenas 140 quilômetros de Damasco, e Homs, o foco principal de rebeldes, mais perto ainda: 120 km.
  

Nas estradas são muitos os postos de controle, congestionando o tráfego.Somente o meu chofer apresenta documentos. Ele sempre aponta o dedo para mim, e diz a palavra magica: “brasili” (brasileiro). Os soldados, uns meninos de vinte anos, com seus AK-47, me olham com admiração e fazem o gesto para irmos em frente. O Brasil deve ser o país mais simpático do mundo.

 

Também estive em Palmyra, totalmente deserta – 207 km de Damasco.  Uma oportunidade única na vida, ficar horas  andando entre colunas romanas, sonhando uma história extraordinária. Nenhuma pessoa, nada,  a solidão completa. As ruínas estão em pleno deserto, o que torna o lugar ainda mais fascinante.  Embora o Forum Romano em Roma seja mais importante, jamais trocaria todo esse mistério por aquela montanha de turistas. A interessante cidade de Palmyra (nova) está completamente separada das ruínas. Sensacional.
Bem, está tudo ótimo em Damasco mas acho melhor cair fora, porque de uma hora para a outra cancelam os vôos, fecham o aeroporto e corro o risco de pagar vexame pedindo ajuda para nossa embaixada.
( as fotos de Palmyra não são minhas. por incrivel que possa parecer esqueci a câmera)  

23 dezembro, 2011 às 01:04

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Categoria: Artigos

Comentários (3)

 

  1. Marco Balbi disse:

    Parabéns, Cláudio! Estou gostando muito! Boa sorte! E, bom Natal!

  2. Francisco Pompeu disse:

    Caro Mafra,
    Estou preocupado com você. Acabo de ouvir notícias sobre a morte de um jornalista francês na Síria. Dê sinal de vida.
    Abçs

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