O Brasil no Conselho Permanente de Segurança da ONU ou, eu acredito em Papai Noel e em coelhinho da Páscoa

O chanceler Antonio Patriota começou mal. Comentando a visita de Obama ele disse que espera dos americanos “uma relação de igual para igual com o Brasil”. De cara já mostrou a inferioridade brasileira. Quem é “igual” não precisa exigir esse tipo de tratamento. O fato se impõe por ele mesmo. É hostilidade desnecessária, é infantilidade. O Depto. de Estado americano recebe a mensagem (correta) de que vai tratar com recalcados, que precisa pisar em ovos.  A esperança de que Dilma seja diferente de Lula sofre mais um tropeço, somando-se ao voto de abstenção com referência ao corredor aéreo na Líbia – voto criticado nas TVs americanas.

A única defesa para a patriotada seria a remota hipótese de que ela possa ter sido apenas para o publico interno, ou seja, afagar o ego dos brasileiros. Mas sabemos que não é o caso. Conhecemos essa turma. Trata-se mesmo de um tiro no pé.

O sonho brasileiro é o assento no Conselho Permanente de Segurança da ONU.  Um sonho no sentido estrito da palavra, sem nenhum amparo na realidade. Faz parte do imaginário nacional que o Brasil tem esse direito por ser imenso, emergente, líder na América do Sul, oitava economia do mundo e o escambau. Até pouco tempo somava-se a esse curriculo o chamado “comportamento maduro de sua diplomacia”, isto é, um país sóbrio, responsavel em suas decisões junto à platéia internacional. Ocioso dizer que em seu último ano o governo Lula jogou no lixo essa característica que foi marcante no governo FH. Embriagado pela sua espantosa popularidade o antigo lider petista renasceu. Resolveu dar liberdade à uma parte sufocada da sua formação que havia deixado para trás após a Carta aos Brasileiros. Ficou ao lado dos regimes mais sujos do planeta. Mandou seus diplomatas votarem sistematicamente a favor dos que violavam direitos humanos  -e eles o fizeram alegremente – em casos tão evidentes, tão claros, que o mal estar foi generalizado, não só entre os outros países mas também entre nós, os brasileiros envergonhados. Esteve muito perto do ridículo escolhermos o caminho da confrontação com as nações democráticas – particularmente com os Estados Unidos – ao mesmo tempo em que cultivávamos a esperança oportunista da conquista de liderança entre os países “marginalizados”. Tudo feito sem nenhuma sofisticação, a rudeza petista em seus melhores momentos.

Até hoje o Conselho Permanente de Segurança funcionou muito bem. É constituído pelos 5 países mais importantes do mundo sob o ponto de vista militar. A seu favor um fato definitivo: com toda a pressão extraordinária da Guerra Fria nunca foi cometido nenhum grande erro. Por que mudar um equilíbrio de forças que se mostrou um sucesso ? Além de serem os mais poderosos, são também atômicos, uma coisa interagindo com a outra. Dentro do clube dos que possuem a bomba, mas fora do Conselho, estão apenas a Índia, o Paquistão, e Israel.

Em novembro do ano passado Obama declarou apoio à pretensão dos indianos em obter um lugar no Conselho. Ninguém até hoje entendeu se era para valer ou se estava em um contexto muito mais amplo, no futuro, quem sabe, vamos ver… De fato, não interessa se a tirada obâmica foi apenas demagógica porque, em qualquer caso,  China e Rússia jamais concordarão. Em primeiro lugar terão seus poderes diminuídos, o que vale para qualquer pretenso candidato. Em segundo, a Índia é pró-Ocidente, e seria engraçado se, apenas por brincadeira – porque também não interessa a ninguém – a Rússia propusesse a inclusão do Paquistão. Esse país atrasado, absolutamente problemático, é responsavel pelo que os russos e chinêses consideram um equilibrio saudavel em parte da  Ásia, contrapondo-se ao seu inimigo histórico que é justamente … a Índia. Os Estados Unidos jamais concordariam com a candidatura do Paquistão. Desta maneira, seria impensavel um sem o outro dentro do Conselho, o que inviabiliza os dois.

O Brasil não é nuclear, o que pode ser muito simpático para o Ocidente, mas em termos de realpolitik impede sua candidatura por princípio. Além do mais, não é confiavel para nenhum dos membros do Conselho: EUA, Rússia, China, Inglaterra e França. Tanto pode se alinhar com os Estados Unidos, se Aécio for presidente, como pode estar ao lado de Chavez, Iran, Cuba, Líbia, se Lula voltar, ou mesmo durante o governo Dilma, ninguém sabe. Alternância de governos é normal em qualquer país, mas no Brasil a polarização corre junto com a imaturidade. Por que os atuais membros do Conselho achariam “justo” o Brasil compartilhar o poder com eles ? Por que correr um risco TOTALMENTE desnecessário ? Se já é dificil o delicado equilíbrio entre os cinco países com décadas de experiência em crises mundiais, imagine de uma hora para outra serem obrigados a conversar com a dona presidenta e a mediocridade agressiva do Itamaraty. E vamos dizer com todas as palavras: o voto do Brasil sempre teria um preço, que nem sempre seria essencialmente político. Poder de veto ???? Nem pensar, ninguém é tão doido assim.

 

 

 

19 março, 2011 às 13:06

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Comentários (2)

 

  1. Maurilio disse:

    Caro sr. Mafra,

    Convenhamos: um sucesso ??

    1) O “Clube dos 5” do Conselho de Segurança são tambem os 5 maiores produtores e exportadores de material bélico do mundo. Um grande erro quem acha que todas essas armas servem pra “manter a paz”. A maior parte das bugigangas que os russos fazem vão parar nas guerras civis africanas. A Coreia do Norte, consegue os brinquedinhos dela com a ajuda DE QUEM !??!?! Da China… que tem assento nesse maldito conselho tambem…

    2) Quer tivessem razão, quer não, os EUA simplesmente ignoraram o que a ONU achava da invasão do Iraque. Quando eles querem, não tem Conselho que dê jeito.

    3) A China, que é uma ditadura corrupta que está pouco se lixando para os direitos, que invadiu e ocupou covardemente um país mais fraco, e apoia uma das ditaduras mais fechadas do mundo, que ate hoje vive parasitando o “capitalismo que vive do sangue do proletariado”… ela TEM DIREITO A VETO dentro do Conselho !!!!

    4) A Russia, uma democracia das avessas, que não sabe produzir outra coisa que nao seja vodka, petroleo e AK-47s, que até hoje tratam o Caucaso como uma “casa da mãe joana” onde eles entram e saem a hora que quiserem… IDEM.

    5) França e Reino Unido conseguem, no máximo, “condenar internacionalmente”, ou seja, só servem pra chorar. E depois, estão falidos e em crise. São o mesmo que nada.

    Como assim um sucesso ??

    Bom final de semana para o senhor.

    PS:

    6) Os 5 membros pensam e votam segundo o que é melhor para o próprio umbigo. Se ser “confiável” quer dizer “votar junto com Fulano ou Ciclano”, discordo frontalmente do que o senhor disse. Se o Brasil entrar e passar a proteger os proprios interesses, não estará fazendo nada mais do que o normal, e do que a PROPRIA OBRIGAÇÃO como governo democraticamente eleito.

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