O Dalai Lama aos 33 anos de idade-encontro com Oriana Fallaci

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Oriana Fallaci, italiana, falecida em 2006, foi uma excepcional reporter. Ser entrevistado por ela era uma espécie de consagração. Kissinger,que se saiu muito mal, disse mais tarde que havia pago um preço pela sua vaidade ao haver aceito o convite de Oriana.

“Sabes? Em 1968, entrevistei um homem extraordinário. O homem mais pacífico, manso, tolerante e sábio que conheci, na minha vida sem ilusões. O atual Dalai Lama, a quem os budistas chamam o Buda vivo. Naquele tempo, tinha trinta e três anos. Não muito menos que eu. E havia nove que era um soberano destronado, um papa ou, melhor, um deus exilado. Enquanto tal, vivia em Dharamashala: uma cidadezinha de Caxemira, aos pés dos Himalaias, onde o governo indiano o tinha hospedado com algumas dezenas de monges e algumas centenas de tibetanos fugidos de Lhasa. Foi um longo e inesquecível encontro. Ora tomando chá naquela casinha que dava para as brancas montanhas e para os glaciares azuis com cristais afiados como cutelos, ora caminhando no jardim cheio de rosas, andamos juntos um dia inteiro. Ele a falar respondendo às minhas questões e eu a ouvir, divertida e comovida, a sua bela voz, fresca e aguda. Oh! Compreendera ao primeiro olhar, o meu jovem deus, que eu era uma mulher sem rei, sem papa e sem deuses. Os seus olhos de amêndoa tornados ainda mais perspicazes pelas lentes em armação de ouro tinham-me perscrutado bem, logo que cheguei. E, no entanto, manteve-me junto de si um dia inteiro. Na sua infinita liberalidade tratou-me como se eu fosse uma amiga de longa data, ou melhor, como uma rapariga a cortejar. E depois de eu lhe ter tirado as fotografias nas suas vestes de monge, perto do meio-dia ele fez uma coisa muito esquisita que nunca contei. Desculpando-se com o calor, foi mudar de roupa e, em vez de valioso xaile de lã vermelho-ferrugem que trazia sobre a sua túnica laranja, adivinha o que vestiu. Um T-shirt, uma camisola, com a figura do Popeye: sim, isso mesmo, o boneco dos desenhos animados. Aquele que tem sempre o cachimbo na boca e come espinafres de conserva. E, quando às gargalhadas lhe perguntei onde diabo tinha encontrado semelhante vestuário, respondeu-me seraficamente: “Comprei-o no mercado de Nova Deli. E vesti-o para lhe dar prazer”.

Deu-me uma entrevista muitíssimo boa. Falou-me, por exemplo, da sua infância, sem a despreocupação e a alegria infantis. Daquela infância passada apenas com os mestres e com os livros em que, já aos seis anos, estudava o Sânscrito, a Astrologia e a Literatura; aos dez, a Dialéctica, a Metafísica e a Astronomia; aos doze, a arte de mandar e de governar… Falou-me da sua adolescência sem alegria e sem descobertas. Daquela adolescência gasta no esforço persistente de tornar-se monge perfeito, a dominar as tentações e os desejos, a apagar os desejos — para apagá-los ia para o quintal do seu cozinheiro e cultivava couves gigantes. “Com um metro de diâmetro, sabe?” Falou-me do seu amor pela mecânica e pela electricidade, confiou-me que se tivesse podido escolher a sua profissão teria sido mecânico ou electricista. “Em Lhasa, eu gostava muito de afinar o gerador eléctrico e de desmontar e montar os motores. Na garagem do palácio real, encontrei três automóveis antigos oferecidos não sei por quem ao meu predecessor, o décimo terceiro Dalai Lama. Dois Baby Austin de 1927, um azul-celeste e outro amarelo e um Dodge laranja de 1931. Estavam completamente enferrujados. Tanto trabalhei neles que consegui até guiá-los. Pena era que não houvesse lugar onde pudessem andar fora da corte do Palácio. Em Lhasa apenas existiam caminhos de mulas e veredas”.

Falou-me ainda de Mao Tse Tung que, no seu aniversário dos dezoito anos o tinha convidado a ir a Pequim, e que seduzido pela sua inteligência o conservara consigo durante onze meses. “Fiquei lá na esperança de que servisse para salvar o Tibete. Pelo contrário! Quem sabe se ele não o quereria, de facto, salvar e outros lho impediram! Pobre Mao. Sabe? Havia algo de triste nele. Algo que enternecia. Tinha sempre os sapatos sujos e a respiração arquejante, fumava cigarros atrás de cigarros e até acendia uns nos outros e só discutia marxismo. Só uma vez aludiu ao budismo e reconheceu que era uma boa religião. Nunca dizia uma tolice”. Dalai Lama falou-me também da atrocidade que os maoístas tinham cometido no Tibete. Os mosteiros saqueados e incendiados, os monges torturados e degolados, os camponeses escorraçados dos campos e massacrados. E a fuga a que se sujeitara. A fuga de um monarca de vinte e quatro anos que, disfarçado de soldado, desce do palácio real, arrastando-se na escuridão, se perde na multidão aterrorizada e atinge a periferia de Lhasa. Lá salta ele para a garupa de um cavalo e, perseguido por um avião chinês que voa a baixa altitude, galopa durante duas semanas. Esconde-se nas cavernas e galopa, aninha-se nas moitas e galopa. Depois, de aldeia em aldeia, chega a Caxemira, onde o Pândita Nehru lhe dá asilo. Mas doravante é um rei sem reino, um papa sem igreja, um deus sem fiéis. Pior: como os seus súbditos estão espalhados na Índia, no Nepal e no Sikkim, quando morrer será praticamente impossível encontrar o seu sucessor; assim quase de certeza será ele o último Dalai Lama. Nessa altura interrompi-o pensando que o ódio devorasse o seu coração e perguntei-lhe: “Santidade, poderá alguma vez perdoar aos seus inimigos?” Olhou para mim atônito. Surpreendido, incrédulo, talvez ofendido, espantado. E com aquela sua voz, cheia de paixão, convicção, sinceridade, exclamou: “Inimigos? Mas eu nunca os considerei inimigos! Eu não tenho inimigos! Um budista não tem inimigos!”

Quando cheguei a Dharamashala ia do Vietname, onde seguia a guerra, compreendes? Naquele ano no Vietname, eu tinha vivido na minha pele a ofensiva do Tet e a ofensiva de Maio, o cerco de Khe Sanh e a batalha de Hué. Em suma, eu ia de um mundo onde a palavra inimigo-enemy-ennemi-inimigo se pronunciava cada trinta segundos, fazia parte da nossa vida, era um som como o som da nossa respiração. Por isso, ao ouvir a frase eu-não-tenho-inimigos, um-budista-não-tem-inimigos, comecei a ver tudo a andar à roda. Quase me apaixonei por aquele jovem monge de olhos de amêndoa e camisola de Popeye. Quando me despedi dei-lhe os meus números de telefone, coisa que já então nunca fazia, e disse-lhe: “Santidade, se for a Florença ou a Nova Iorque, telefone-me”. Convite a que me respondeu: “Certamente, naturalmente. Mas com a condição de nunca mais me chamar Santidade. Chamo-me Kon-dun”. Depois, nunca mais o voltei a ver, a não ser na televisão onde notei que envelhecia como eu. As nossas vidas tinham seguido por caminhos tão diferentes, tão afastados… Apenas uma vez alguém me trouxe cumprimentos dele e disse-me: “O Dalai Lama perguntou-me como estás.” E eu, nem sequer isso. Contudo, nestes trinta anos, nunca esqueci as palavras daquele jovem monge que tanto me tinha comovido.”

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Dalai_Mao

23 fevereiro, 2010 às 02:38

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Categoria: Artigos

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