O equivocado artigo de Fernando Gabeira


Fui amigo de Fernando Gabeira na década de 80. Dali para a frente só nos encontramos esporadicamente. A amizade não acabou, mas os contatos sim. Sempre tive grande admiração por sua inteligência e senso de humor. Um belo dia, ele já candidato à presidente da república, fomos  buscar o Zé Genoino e a Lucélia Santos no aeroporto em Brasilia. Ele me disse duas coisas muito importantes: a primeira mostrava sua completa discordância com o PT ( não me lembro o que foi, mas tinha a ver com os condutores de metrô na Suécia, e sua pouca vontade em fazer greves e lutar pelo poder).  A segunda ficou indelével, marcada para sempre. Conversávamos sobre ecologia, a devastação,  das matas, os rios poluidos e tudo o que sabemos. Se me lembro bem ele já havia entrado  para o partido Verde e sua militância nas causas ecológicas era muito conhecida.  Perguntei se acreditava que a situação poderia se reverter através do nosso trabalho. A pergunta deveria ser um tanto estúpida. Sua resposta foi surpreendente: NÃO.  Ele não acreditava. Muito surpreso perguntei então porque estava nessa luta . Sua reposta foi:  porque é preciso, porque é assim que tem que ser, não posso fazer outra coisa. E completou: “A destruição é em escala industrial e a conscientização em escala artesanal”.

Vou comentar seu artigo no Estadão e, embora seja sarcástico e duro, gostaria que ficasse claro que eu gosto muito dele, além de considera-lo uma das pouquíssimas figuras publicas que merece respeito neste país.

Uma grande discussão sobre as classes médias emergentes foi provocada por um artigo de Fernando Henrique Cardoso. É um debate típico de grupos que disputam o poder estatal. Mas existe no mundo também um grande debate voltado para as pessoas que não disputam o poder estatal, não têm projetos de salvação, muito menos acreditam no mito do fim dos tempos.

Bruno Latour, na introdução do livro de 1.070 páginas Atmosferas da Democracia, que traz inúmeras contribuições criativas, usa uma imagem que talvez sintetize o sentimento das pessoas diante da política. Segundo ele, há conjunções planetárias tão pavorosas que os astrólogos recomendam que fiquemos em casa até que os céus mandem novas mensagens. A cena política, com seus picaretas, bufões, terroristas, é algo que desanima.

Mas se é assim, por que tanto esforço e tanto papel para detectar novas possibilidades? O próprio Latour responde no parágrafo seguinte: a astrologia e a ciência política não são exatas e há sempre a possibilidade de novas conjunções, de mudanças. O momento de desespero político permite, pelo menos, que se investiguem outras ideias, novas matérias. Aliás, a tônica de sua intervenção é defender uma política orientada para o objeto, uma política que não seja realista como no tempo de Bismarck porque a palavra realidade perdeu o sentido, diante de tantos crimes cometidos em seu nome.

De forma mais abstrata, esses temas podem ser discutidos numa série de conversas que estou preparando. No momento, vou usá-los, parcialmente, para expressar minha perplexidade diante do que acontece na Líbia.

Por que na Líbia? No século passado aderi ao socialismo revolucionário, que continha uma proposta de salvação. Nas últimas décadas tenho defendido a luta ecológica, que também encerra, embora muitos não percebam, elementos da mitologia religiosa, como o fim dos tempos. Com os novos recursos tecnológicos de que dispomos talvez seja possivel salvar o planeta

Neste princípio do século 21, sinto a democracia liberal, pressionado pela busca de recursos naturais, caminhar pelas mesmas trilhas mitológicas, da invasão do Iraque aos bombardeios à Líbia. A suposição de que um regime político pode ser imposto de fora para dentro, com a força das bombas, só pode ser movida por sentimentos religiosos de salvação. Gabeira está naquela de que os USA invadiram o Iraque por causa do petróleo e que o mesmo está acontecendo com a Líbia ? Isso é uma colossal mentira que colou, não tem mais jeito. Seria o cúmulo da vulgaridade se não fosse opinião quase unânime entre os intelectuais, jornalistas, e circulasse como verdade absoluta dentro das universidades. Quanto à “força das bombas”isso é pura teorização barata. Acho inaceitavel.Pelo contrário, teme-se que as bombas e consequente queda do tirano provoque outro regime pior, um regime fundamentalista, dirigido por terroristas. Ninguém está nem de longe pensando em transformar a Líbia da noite para o dia em uma democracia. O que se está fazendo, por motivos humanitários, é correr um enorme risco. Poderíamos fazer assim: que os líbios se virem, que eles mesmos consigam, seja lá como for, derrubar Kadafi. O que não podemos é colocá-lo para fora e nos depararmos com algo infinitamente mais perigoso PARA NÓS.  Tomando a decisão do humanitarismo ( que não é uma decisão facil, o secretário americano de Defesa, Robert Gates é contra), o que se deseja com as bombas é derrubar um regime tirânico que passou de certos limites. Se não jogarmos bombas o que vamos fazer ? A invenção das sanções econômicas surgiu justamente para evitar esse caminho, mas muitas vezes não funciona e se queremos bancarmos os mocinhos temos que partir para a violência. Jogamos as bombas porque é o único caminho que resta. Custa uma fortuna extraordinária, morrem soldados, e a imensa maioria dos países sempre se posiciona contra. Eu gostaria muito de saber que solução os pacifistas têm escondidada no bolso do colete porque até agora não disseram como poderíamos resolver problemas desse tipo. Uma coisa eles conseguiram, sem duvida: fazer com que guerras que acabariam em semanas durem vários anos. Por causa deles os Estados Unidos não podem usar nem um centésimo do seu poder militar. Exatamente como aconteceu no Vietnam, com a enorme ressalva que os vietnamitas eram excepcionais soldados e esses árabes não dão nem para a saída.

John Gray, cujo livro Anatomia acaba de ser lançado no Brasil, abordou essa questão na forma de sátira, escrevendo um artigo sobre a importância da tortura para preservar a democracia e a necessidade de proteger os torturadores no seu delicado papel. Foi alvo de inúmeras críticas de gente que até hoje não entendeu a sátira, escrita na tradição de Jonathan Swift, que, uma vez, propôs que os irlandeses dessem suas crianças para serem comidas pelos ingleses. A tortura é importantíssima para preservar as nossas vidas, que serão contadas às centenas de milhares, se os terroristas puserem as mãos em armas nucleares. A expressão usada “usar a tortura para preservar a democracia” é maliciosa. De fato em última instância tortura-se para evitar o crescendo de atos terroristas. Sem a tortura o terrorismo cresceria exponencialmente. A situação do mundo é completamente diferente após a queda das torres. Hoje, quando se fala em tortura não se está procurando proteger uma cidadezinha de um serial killer, ou proteger um ditador latino-americano, ou africano. A tortura procura evitar uma hectombe. Volto a perguntar: Um terrorista vindo do Yemen colocou uma bomba em um estádio de futebol ( pode ser até na Copa do Mundo no Brasil). Ele foi preso, e confessou que sabe aonde ela está escondida. A previsão é de que mate 3 mil pessoas. Ele também já disse que ela vai explodir a qualquer momento, ou em 10 minutos, 30 minutos. Ele se nega a dizer aonde ela está. Vamos continuar perguntando ou vamos tortura-lo imediatamente, o mais depressa possivel ? Ora, vamos deixar de conversa fiada, de teorias ridículas. Seria um crime horroroso deixar 3 mil pessoas morrerem. Sabemos que a tortura tem evitado atentados, que  já deve ter salvo milhares de vidas. Gostaria de saber a resposta do Gabeira para a pergunta da bomba no estádio. Ele sacrificaria as pessoas em nome de um principio ? Mesmo que soubesse que situações como essa deveriam se repetir cada vez mais, e com o perigo das bombas nucleares de bolso a ameaça de morte passar de poucos milhares para centenas de milhares. Como Gabeira responde a isso ? Iria firme com o seu principio até estarmos totalmente escravizados pelos terroristas ?  Ver meus artigos :Você torturaria um terrorista?” e “Você jogaria a bomba atômica em Hiroshima ?”

Entendo também como uma sátira o texto de Peter Sloterdjick, no livro coordenado por Latour, propondo o parlamento pneumático para levar a democracia de cima para baixo aos povos da África e do Oriente Médio. A proposta, bastante detalhada, implica um grande parlamento que, lançado de paraquedas de um avião, a uma altura de mil metros, ao cair seria inflado automaticamente. O parlamento pneumático de Sloterdjick teria lugar para 160 representantes e contaria também com algumas baterias de energia solar. Isso até pode até ser engraçado, mas é  melhor ler o meu artigo:  “Eu tenho um plano.”

Quando John Gray questionou a imposição da democracia pela força e a tortura, estava se baseando apenas nos fatos revelados em Abu Ghraib, prisão do Iraque. Esta semana o WikiLeaks revelou inúmeros outros problemas em Guantánamo, onde até um octogenário, com demência senil, era mantido como perigoso terrorista.

Pelo amor de Deus. Os caras que estão em Guantânamo são os selvagens mais perigosos do mundo. Obama havia prometido fechar a prisão no primeiro dia do seu mandato. Adiou por um ano e agora sabemos que não fecha de jeito nenhum. Outro dia o Estadão disse que o motivo para essa atitude seria a imensa pressão dos republicanos. Mentira deslavada. Os republicanos não podem fazer nada a não ser espernear. Obama não vai fechar Guantânamo porque foi informado sobre a realidade, e antes ele era feito o Gabeira: vivia de fantasias. Ninguém diz que dezenas de prisioneiros foram soltos, dezenas voltaram a lutar, três morreram em combate, e outros foram feitos prisioneiros novamente. Isto é a maior injustiça com o soldado americano que luta duas vezes contra o mesmo sujeito, mesmo já o tendo vencido uma vez. Já escrevi ad nauseam sobre isso. A propósito: Obama manteve o secretário de Defesa do presidente Bush,  os generais de Bush, e agora que Gates (Defesa) vai sair, ele vai nomear para substitui-lo um outro do time de Bush, ao que me consta o último a ocupar a direção da CIA. O general Petraeus (Bush) vai substituir Gates.

O que acontece na Líbia não precisa só das sátira para se incluir na dimensão do absurdo. Basta um exame frio dos efeitos colaterais da luta pela democracia. Esses efeitos não são apenas bombardeios que às vezes atingem civis. São mais concretos e podem, paradoxalmente, representar um recuo na democracia ocidental. Os bombardeios atingem civis, Gabeira, isso não tem jeito. Ganhar uma guerra sem matar civis é impossivel, será que isso não entra na cabeça dessa gente ? Você, meu amigo, já não acha suficiente o extraordinário avanço tecnológico que permitiu que não precisemos fazer como na Segunda Guerra Mundial, quanto TORRAMOS a Europa, bombardeando cidades exatamente para provocar a morte de civis, baixar o moral da população, terminar com a guerra mais cedo e poupar as mortes entre os aliados ? Não havia alvos seletivos. E sobre o momento presente nem vale a pena dizer que os selvagens usam civis como escudos. Não adianta. Tudo isso é muito dificil para quem definitivamente não quer enxergar. O choque com a realidade seria tão grande que o cego por vontade própria entraria em parafuso, se desestruturaria.

Um exemplo disso é o drama dos refugiados que se concentram na Ilha de Lampedusa e obrigaram a França a interromper os trens que vinham da Itália. Apesar de o papa Bento XVI ter pedido por eles, os refugiados do Norte da África podem provocar um recuo no próprio processo de integração da Europa. Alguns países, como a França e a Alemanha, tendem a questionar o Tratado de Schengen, que permite ao estrangeiro circular, livremente, pela Europa, uma vez admitido num dos países-membros. Claro, ninguém aguenta mais imigrantes destruindo a vida civilizada na Europa. Aliás o continente está tão entupido desses caras que seu nome deveria ser trocado para Eurábia. Proliferam como ratos e têm um motivo político apregoado em suas terras e mesmo nas mesquitas ocidentais: Vencer pelo número. Gabeira, porque você não deixa uns dois ou três sem teto morarem na sua casa ?

Outro efeito colateral interessante foi revelado esta semana pelo jornal The New York Times: um companheiro de Bin Laden, que lutou com ele no Afeganistão, foi preso em Guantánamo e libertado em 2007, é hoje líder de um dos grupos meio bizarros que lutam contra Kadafi. Sem querer, os Estados Unidos tornam-se aliados de um militante da Al-Qaeda. E daí? É muito gostoso dizer isso ? Mostra os Estados Unidos como o gigante bobão, que só faz trapalhadas? Esse cara óbviamente é fundamentalista e vai lutar para que a Líbia se torne um estado de Alá Akbar. Tem muita graça? Não se preocupe, meu amigo, ele rapidinho vai se inimigo dos Estados Unidos outra vez.  

Todos esses paradoxos que envolvem a democracia liberal não são novos, mesmo dentro do contexto autoritário do comunismo. Quando os tanques entraram em Praga, um grupo pequeno entre nós denunciou aquilo afirmando que o socialismo não poderia ser imposto de fora para dentro, na ponta das baionetas. Não entendi. Apenas denunciou o que todo mundo sabia ou foi novidade ? Se foi novidade é incrivel dizer que  um pequeno e extraordinário grupo de esquerda conseguiu perceber que “o socialismo não poderia ser imposto de fora para dento, na ponta das baionetas”. Gênios.

O próprio liberalismo, a julgar por pensadores como Gray e Isaiah Berlin, este já morto, pode encontrar um caminho no seu labirinto. Basta desvencilhar-se de um dos polos da contradição que o deforma. O problema é escolher entre o consenso racional sobre o melhor modo de vida ou a aceitação de que seres humanos podem desenvolver-se adotando os mais diversos modos de vida. O que Gabeira está definindo como liberalismo ? O americano ? O que está se tentando criar no Brasil ? O Liberalismo americano sabe muito bem o que quer: um estado grande, regulador, o fim da individualidade em nome do bem estar da maioria, uma politica de assistência social,  a rendição é preferivel à guerra e por aí afora.

Isso não implica passividade diante dos crimes de Kadafi. Mas significa apenas admitir que é um absurdo imaginar que a democracia se vai impor de fora para dentro, com bombas e tortura. Então apresente sua sugestão, Gabeira. Como é que tem que ser? E quem foi que disse que o Ocidente está esperando uma democracia na Líbia ? Ele está lutando por isso, mas não necessariamente acredita que vá acontecer. No momento está tentando impedir o massacre que Kadafi havia iniciado, e ao que parece está obtendo algum sucesso, APESAR DO EXTRAORDINÁRIO NÚMERO DE BAIXAS ENTRE GRÁVIDAS, VELHINHOS E  BEBÊS!

O marxismo foi uma religião secular, com seus ritos e sua mensagem de salvação universal. A ecologia, com o mito do fim dos tempos, corre o mesmo risco, assim como a democracia ocidental, com suas guerras pela liberdadeQuantas guerras contra a tirania a democracia ocidental conseguiu ganhar apenas nas útimas décadas ? Não vou listá-las por falta de paciência.  Ao fundar sua ação na fé, a política, conforme observa o próprio Gray, provou ser tão destrutiva como a religião, nos seus piores momentos. Essa tese sobre os objetivos “religiosos” da democracia ocidental é original, e mais uma bobagem. Ufa, até que enfim o artigo acabou. Que suplício.

2 maio, 2011 às 17:21

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Categoria: Artigos

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