O futuro da democracia no Egito (Condoleezza Rice)- comentários do blog

Condoleezza Rice, The Washington Post – O Estado de S.Paulo

Enquanto assistia ao discurso de Hosni Mubarak na semana passada, pensei: “As coisas não precisavam ter seguido por este rumo”. Em junho de 2005, como secretária de Estado, cheguei à Universidade Americana no Cairo para fazer um discurso sobre a crescente força do movimento por mudanças democráticas na região. Seguindo o espírito do segundo discurso de posse do presidente George W. Bush, eu disse que os EUA ficariam ao lado daqueles que buscam a liberdade. Tratou-se de um reconhecimento de que os EUA tinham buscado preservar a estabilidade sacrificando a democracia, sem atingir os objetivos propostos. nota do blog: este foi um discurso que mereceu pouquíssima atenção da imprensa, quando de fato rompia com décadas de política americana de apoio aos ditadores em busca de estabilidade na região. Os Democratas e Liberais (e quase a totalidade da mídia) não poderiam admitir que um governo republicano, e ainda mais sendo o governo de Bush, pudesse levantar a bandeira da qual eles se julgavam donos.  Quer dizer, a bandeira que eles pensam saber usar: vide Jimmy Carter apoiando o Hammas, ou sendo contra Pinochet, vide Obama estrangulando Honduras quando não entendeu o contra-golpe militar, e assim por diante. Distinguir uma ditadura de fato, ou o MOMENTO em que essa ditadura deixa de evitar um mal maior, é extremamente dificil, e claramente não é o forte dos Democratas e Liberais . Um governo republicano sim, pode ser eficiente nesse julgamento, e foi exatamente o que Condoleezza Rice fez naqueles dias, em 2005. 

Durante algum tempo pareceu que a liderança egípcia estava respondendo – nem tanto a nós quanto ao seu próprio povo, que exigia mudanças. Os egípcios tinham acabado de testemunhar a retirada das tropas sírias instaladas no Líbano e a eleição de um novo governo; as eleições livres organizadas no Iraque; e o surgimento de novos líderes palestinos. Alguns meses mais tarde, eleições presidenciais mais livres foram o resultado de acalorados debates.

Mas, pouco depois, Mubarak recuou. As eleições parlamentares foram uma farsa, as detestadas “leis de emergência” permaneceram em vigor e opositores foram detidos. Entre os egípcios começou a ferver uma raiva que acabaria explodindo na revolta da Praça Tahrir.

Agora o regime de Mubarak se foi. Há temores compreensíveis de que as coisas não terminem muito bem. A Irmandade Muçulmana representa a força política mais organizada do Egito. Mubarak sempre disse que tudo se tratava de uma escolha entre ele e a irmandade, e deu prosseguimento a políticas que tornaram realidade tal profecia.(todos os grifos são do blog) Enquanto muitos líderes decentes, mais seculares, foram perseguidos, a irmandade se organizou e ofereceu serviços sociais que o regime não podia proporcionar. nota do blog: Exatamente. Essa é uma boa análise, mostra os fatos, e não insiste em contos da carochinha, que ignoram o tremendo perigo da Irmandade Muçulmana, a qual apoia o Hammas e o Hezbollah. É particularmente interessante a inteligência desses radicais muçulmanos egípcios. Durante todos os dias que levaram à queda de Mubarak eles se mostraram extremamente sensatos. Não se mostraram beligerantes, não fizeram nenhuma ameaça ao Ocidente, nem disseram que acabariam com Israel, etc.etc. Que os trouxas acreditem neles, não os que acompanham sua trajetória há longo tempo. São um terrivel perigo, e contam aproximadamente com 60% dos votos do povo egípcio. A chave da questão está nas mãos dos militares, da mesma forma que na Turquia.

Os EUA sabem que a democracia é um processo longo. Não pretendo fazer pouco dos desafios que a incerteza quanto ao futuro egípcio representam para os interesses americanos. Não podemos determinar quais serão as preferências da política externa do próximo governo. Mas podemos influenciá-lo por meio de nossos laços com o Exército, nossos elos com a sociedade civil e a promessa de auxílio econômico para ajudar a melhorar a situação do povo do Egito. (grifo do blog): sim, o mais importante é o contínuo contato com o Exército, e muitíssima atenção para que o Congresso americano não repita o que fez com a Turquia, quando desmoralizou os militares e deu força ao islamismo no momento em que condenou esse país pelo massacre dos armênios fato que aconteceu em 1913 (!). Obama também pode cometer tremendos erros, já que se trata do mais esquerdista presidente americano de todos os tempos. No momento, o passo mais importante é expressar nossa confiança no futuro de um Egito democrático. Os egípcios não são como os iranianos, e não estamos em 1979. As instituições egípcias são mais fortes e o secularismo é mais profundo no país. Cabe aos egípcios definir o que virá a seguir. A democracia política será desafiada pelos princípios políticos do Islã. grifo do blog: os Liberais insistem em negar esse perigo. O Diretor da Agência Nacional de Inteligência do governo de Obama fez uma ridícula defesa da Irmandade, dizendo que ela abriga várias tendências, sendo que a secular é a mais forte, um absurdo, algo inimaginavel para um funcionário que ocupa esse cargo. Os próximos meses e anos devem ser turbulentos. Mas esta turbulência é preferível à falsa estabilidade da autocracia na qual forças malignas encontram espaço para se instalar na ausência de liberdade. Depende muito do perigo à frente. Condoleezza está restrita ao tamanho do texto, pois deveria explicar melhor.

Não estamos em 1979( sim, é muito provavel que sim, mas ninguém tem certeza que no médio prazo os muçulmanos radicais não tomarão o poder )nem em 1989. Ainda assim, os EUA devem apoiar as forças da democracia, não porque elas se mostrarão mais amistosas em relação a nós, e sim porque serão mais amistosas em relação ao seu próprio povo.

Os governos democráticos, entre eles nossos aliados mais próximos, nem sempre concordam conosco. Ainda assim eles partilham de nossa crença mais fundamental – a de que o povo deve ser governado pelo consentimento. Isto é tão verdadeiro hoje quanto em 2005, quando eu disse que o medo de escolhas livres não poderia mais justificar a negação da liberdade. Temos uma única escolha: confiar que no longo curso da história estas crenças partilhadas serão mais importantes do que os obstáculos imediatos que temos pela frente e, no fim, nossos interesses e ideais serão adequadamente contempladosEsta é uma tese arrojada, trata-se de um imenso risco. E se no meio do caminho do “longo curso da história”,  os “obstáculos imediatos” representarem bombas atômicas nas mãos de terroristas ?  Não existe volta para um erro desse tamanho. É necessário termos total consciência de que não existem caminhos faceis. A força, ou a ditadura muitas vezes precisam se impor. Foi assim no passado para evitar o comunismo( Brasil, Chile, p. ex.) e agora com respeito ao terrorismo. Administrar essa nova realidade é extraordinariamente dificil.  Condi Rice ficou um pouco no meio do caminho. Deveria traduzir melhor seu pensamento, arriscar-se a dizer o que pode acontecer se no caminho da democracia , isto é, afastando-se os tanques, qual o preço que de uma hora para a outra deveremos pagar, ou se estamos dispostos a paga-lo. Trata-se não só de uma questão política, mas sobretudo ética, moral./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É EX-SECRETÁRIA DE ESTADO DOS EUA



18 fevereiro, 2011 às 00:07

Tags:

Categoria: Artigos

Comentários (2)

 

  1. Jonas disse:

    Mais uma lambança americana… quando vão aprender…
    Todos sabem que o terrorismo não é uma causa, mas uma consequência do fato dos EUA terem sufocado a liberdade, o progresso e a democracia no Oriente Médio.

    • Claudio Mafra disse:

      Jonas, Jonas, deixe o rebanho, Jonas, aceite a verdade como eu a transmito, deixe a boiada Jonas, fique livre, renasça!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

* Copy This Password *

* Type Or Paste Password Here *