Cuba: Uma Piada Sinistra

Fotos: Claudio Mafra. Reprodução permitida mediante citação dos créditos.

AtrasdeGrades

Chegando ao ótimo hotel Casa Grande, em Santiago de Cuba, vejo que um amigo já conseguiu uma mesa na varanda e está conversando com três moças. Puxo uma cadeira, olho para elas, e faço a pergunta fulminante: “Vocês são comunistas?” Alguns segundos de colossal espanto. Logo após, as três caem em gargalhadas beirando o histerismo, uma coisa tão contagiante que nós também nos sacudimos de rir. Quando perguntei: – “Por que vocês riram?”, a mais esperta respondeu: – “Pela mesma razão que vocês!”. A pergunta, tão crua, forte, soou estranha porque em Cuba essa palavra é evitada. Preferem “revolucionários”. Ao usar “comunismo” eu enfatizei a desgraça que estão vivendo. Ainda rindo, uma das moças joga a cabeça para trás, põe as mãos na testa e diz : “E eu ensino História Cubana!” Mais gargalhadas. Impossível um quadro mais claro: o regime cubano é uma piada sinistra. Depois, elas nos contam sobre os filhos, que aos 15 anos de idade têm que participar de atividades políticas ou serão considerados “contra-revolucionários”.

Amigos

Em Santiago consegui achar um ótimo interlocutor, o Noel. Enquanto come o melhor almoço de sua vida, (lagosta, paga por mim, claro) e sem nenhum medo de falar, ele vai respondendo de uma maneira tão franca que por momentos cheguei a pensar que seria um agente do governo me fazendo de bobo. “Fidel é rico?”, indaguei, pensando em contas bancárias na Suiça. “Claro – responde Noel – ele é o dono de 11 milhões de pessoas, das casas, dos carros, dos hotéis, desse restaurante e tudo que você está vendo” – e faz um gesto largo mostrando toda a praça. Logo começa a explicar de que maneira o ditador se livrou dos outros revolucionários para ficar sozinho no poder. Cubana4Vai movimentando o saleiro e os garfos, como se fossem peças de xadrez. Um deles é Che Guevara, o outro Camilo Cienfuegos, e assim vai contando os estratagemas de Fidel. Sobre Cienfuegos, que morreu em um mal explicado desastre de avião, Noel diz que existe uma expressão em Cuba : “Hombre, tu tienes más intrigas en su cabeza do que la muerte de Camilo” , ou seja, “Cara, você é mais misterioso do que a morte de Camilo”. O meu descontraído informante quando se refere ao Comandante, passa a mão no queixo, fazendo um cavanhaque imaginário, e explica, rindo, que é a senha que as pessoas usam para não dizerem seu nome. “E o serviço médico?” pergunto. “Você tem que esperar dois, três meses na fila para ser atendido.” Bem, nada diferente do Brasil. A pergunta: “Como é que os cubanos estão vendo a doença do Fidel?”, a melhor das respostas: “Lembra-se de quando ele caiu e machucou a perna? As pessoas diziam: Se cayó! Se cayó!!!” (Caiu!Caiu! ), e Noel estampa um enorme sorriso. Para não fugir à regra, ele também não sabe quantos filhos Fidel tem, se está casado, onde trabalhava, e assim por diante.

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Poucas pessoas ainda se iludem com o sistema. As bombásticas frases pintadas nas paredes exaltando a revolução se tornaram cansativas e até infantis. Os cubanos estão fartos de serem “revolucionários”, estão desiludidos, desesperados por uma mudança. Nas cidades, uma das fontes da consciência de seu drama é o turismo. Eles são humilhados pelo apartheid do turismo: os turistas, que tudo podem, e os cubanos, que não podem nada. Para começar, existem duas moedas em circulação. Entre os cubanos circulam os pesos, e entre os turistas os “convertibles”. Um convertible (1,20 dolares) vale 25 pesos cubanos, sendo que os salários no geral variam de 125 pesos ao mês (faxineiros) até mais ou menos 600 pesos (médicos, militares). Isto significa que um médico ganha por volta de 25 convertibles, ao mês. O mais comum é um trabalhador ganhar 250 pesos, ou, 10 convertibles. O cubano, passando pela rua, pode ver a mesa do restaurante onde um turista com sua família está gastando em um jantar 50 convertibles, (perto de 50 dólares), ou seja, o que ele ganha em 5 meses de trabalho. Dos dois lados, o constrangimento é total. Desse modo os cubanos vivem de forma humilhante em um mundo aparte, não podendo desfrutar dos prazeres que seu país proporciona, reservados unicamente aos turistas.

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Estar ligado ao turismo é uma das melhores opções, porque eles recebem as “propinas”, ou gorjetas. São escolhidos os mais qualificados, ou, os com maior apadrinhamento político. Uma gorjeta de 2 dólares (4 reais) representa quase 50 pesos, ou 5 dias de trabalho em um emprego de rendimento médio.

Aluguei um carro e não perco nenhuma oportunidade de dar caronas, (“botellas”) nas estradas no interior. Quanto mais longo o trajeto, mais as pessoas adquirem confiança e desabafam. Três jovens estão comigo e o assunto são as vacas que vemos pastando, solitárias, já que não existe nenhum rebanho. Uma mocinha e um rapaz estão pegando fogo nas críticas ao sistema e o terceiro está apavorado, a cabeça entre as pernas, provavelmente louco para sair do carro. “São 25 anos de prisão se alguém matar uma vaca!” grita a mocinha. O rapaz dá os detalhes. A mocinha continua exaltada: ‘”a carne é para vocês, turistas, nós não podemos, é muito caro”!’. Fico sabendo que a vaca não é do seu suposto dono. São vacas estatais. A vantagem para o “dono” é o leite e o queijo, que ele pode vender. Quando nasce um bezerro ele paga uma taxa. Mais tarde, tive sorte e entrou um “dono” de vaca no carro, com o leite e tudo. O regime não é tão duro assim. São apenas 5 anos de prisão se ele ficar louco e matar a vaca, mas se for um estranho são mesmo 25 anos. Com as cabras, porcos, galinhas, a lei não se importa.

 

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No famosa cidade de Varadero, que já foi o must de Cuba, muitos cubanos hospedados em hotéis de qualidade inferior. A conta é paga pelo estado. São os “vanguardias”, trabalhadores que se destacaram em seus serviços e foram beneficiados pelos “estímulos” dados pelo governo. Parece que esses campeões do trabalho também têm direito a 3 dias de lua de mel. Ainda existe o “estímulo” em pesetas, ou mesmo convertibles para aqueles que nunca faltaram ou chegaram atrasados, o que é chamado de “idoneidade”. Uma mulher e sua mãe, perfeitamente à vontade, me contam que estão no hotel porque têm uma tia que é figura importante no Partidão da província.

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Quando você vê cubanos em cafés ou restaurantes de turistas, a melhor explicação é a de que eles são os privilegiados que recebem “remesas”, isto é, dólares remetidos do exterior por algum parente que conseguiu fugir de Cuba, ou por alguém que recebeu uma “invitación” (convite) para morar em outro país, coisa dificílima, cheia de problemas burocráticos e chantagens que, só mesmo morando em Cuba para conseguir entender. Aliás, por causa do medo os cubanos não trocam informações.

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O porquinhão não pertence ao Estado

O chofer de taxi fica me esperando, mas antes desliga o taxímetro. Quando eu volto, ele pede que eu me sente no meio do banco: – “Se o senhor se sentar perto de janela um sensor aciona o taxímetro e o dinheiro vai para a empresa. Acontece que eu preciso de algum para mim mesmo.” Ótimo, vamos ajudar o rapaz a enganar a ditadura.

Sempre me impressionam os velhos sentados em muros, ou no passeio ao lado da rua, pensativos, olhar distante. Será que se sentem culpados pelo que aconteceu ao seu país? Será que lutaram ao lado de Fidel e agora se arrependem? Impossível puxar conversa com eles, pois não abrem a boca. Os Velhos Tristonhos 01Os Velhos Tristonhos 03É difícil aceitar Cuba socialista. É muito diferente do que foi, por exemplo, o Leste europeu, durante o império soviético. Lá, as pessoas eram duras, o clima tenso, pesado, falavam línguas estranhas, sentia-se muito mais a brutalidade do regime. A completa impossibilidade de comunicação colocava um muro entre os poucos turistas e a população do país. É dificil se acostumar com o fato de que a tragédia da Europa Oriental, tão distante, aconteceu aqui, nos trópicos, com essas mulatas, essa música deliciosa, e o povo tão gentil falando uma língua quase igual a nossa. Também é perturbador constatar que em sua maioria os cubanos têm consciência dos crimes e violências, e de quanto é ridículo o seu governo.

O Único Leito do Granma

Cuba estaria melhor com uma ditadura estilo ópera bufa, tipo coronel Fulgêncio Batista, o presidente deposto em 1959 por Fidel. Vi uma foto no museu da Revolucíon, na qual ele aparece junto com seu ministério. Todo mundo de terno branco. Só faltava a rumbeira Ninon Sevilha se rebolando ao lado. Batista era igualzinho a um cantor de bolero. Parecia muito mais cubano do que Fidel. É muito irônico o comandante en jefe, nos primeiros momentos da revolução, haver se referido às prostitutas ao dispor dos americanos. Hoje, existe uma verdadeira indústria de turismo sexual, com os cafetões abordando você na rua e oferecendo suas mulheres em frente a todo mundo.

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É muito comum que homens solitários paguem uma prostituta para que essa faça companhia full-time, isto é, o acompanhem nos passeios, almoços, e assim por diante. No Extremo-Oriente, em vários países, como Tailândia, Cambodja, Vietnam, também acontece a mesma coisa.

A parte antiga da cidade de Havana (La Habana Vieja) é muito bonita. Está sendo toda restaurada com dinheiro da Unesco e se continuar assim, Havana inteira poderá se transformar em uma das capitais mais lindas da América Latina. Palácios, casas coloniais espanholas, tudo preservado. Quando um prédio não resiste e desaba, eles fazem uma praçinha no lugar. O que ainda não foi restaurado é deprimente, mostra toda a pobreza do regime.

Um problema preocupa todo mundo. Existe o perigo de quando os exilados em Miami voltarem, reclamem a posse das suas antigas casas, e construam edifícios horrorosos, como é a regra nas cidades da latino-americanas. No final do séc. XIX e começo do séc. XX, Havana era mais conhecida do que o Rio de Janeiro ou Buenos Aires. Gente importante morou nessa cidade: o grande Bolívar, que libertou quase toda a América do Sul do domínio espanhol, o geógrafo alemão Humboldt, o guerrilheiro mexicano Juarez, o unificador da itália, Garibaldi. Na rua Obispo está a casa do ecritor portugues Eça de Queiroz.

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O aeroporto em Havana é a pura ociosidade: um monte de funcionários batendo papo sem fazer nada. Uns poucos poderiam dar conta do recado, mas onde colocar tanta gente sobrando? Pego um taxi, mas ele não se move porque a polícia fechou a saída para dar preferência aos carros oficiais dos altos dignatários que acabaram de desembarcar. O chofer me explica que vai haver um “cumbre”, isto é, uma reunião de setenta e tantos países. Quem terá vindo a esta reunião? Africanos, e latino-americanos, é claro. As eternas conversações carregadas de auto-piedade e ressentimentos. Mas o chofer está animado. Acha que o cumbre vai resolver muitos problemas de Cuba. Sem dúvida, ele é um “revolucionário”.

Hemingway e Fidel - Cart_o Postal
Ernest Hemingway é muito cultivado em Cuba. É uma ponte que Fidel inventou para se chegar ao homem “bom” do regime capitalista. A sua casa é atração turística, os bares que frequentava – La Bodeguita del Medio, e El Floridita – se tornaram famosos, seus drinques favoritos são servidos em todos os lugares.
Fui almoçar no seu restaurante preferido em Cojimar, de frente para o verde mar caribenho. Ele foi muito fotografado ao lado de Fidel. Percebe-se que devem ter sido admiradores um do outro. Homens grandes, intensos, homens de ação, violentos, apreciadores de charutos, bebidas e mulheres.

Allende: Cuba Libre, Chile Espera

Propaganda Revolucionária 01Eu estive no Primeiro Seminário dos Estudantes do Mundo Subdesenvolvido, em 1963, em Salvador. Quem estava lá? José Serra dando início à sua careca e à sua carreira política, como candidato à presidência da UNE. E também os vitoriosos estudantes cubanos! Já haviam feito a sua Revolução, o sonho de todos nós. Caminhavam orgulhosos, auto-suficientes, os nossos professores de como chegar ao poder, tratados com admiração de pedir autógrafo, os representantes dos heróis cubanos, os representantes de Fidel e Che Guevara. Quem poderia imaginar que estavam levando o seu país para uma ditadura muito mais séria, muito mais bem estruturada do que a dos ridículos militares a que a América Latina estava acostumada.

Conversando com dois músicos cubanos, percebi que não paravam de olhar para os lados. Se eu estivesse com mulher e filhos não haveria problema, mas um homem sozinho, eles têm medo do que a polícia secreta possa pensar. Em Havana, devido ao imenso número de turistas, e com a abertura cosmética, mas de grande intensidade psíquica, efetuada por Raul, o medo está se extinguindo, mas, no interior da ilha, tive exemplos de pessoas que se afastavam assim que eu tentava uma aproximação. Existem muitas exceções, no entanto, se você for persistente. Gente que está querendo desabafar. Passando por uma praça na cidade de Matanzas, deixei cair alguma coisa no chão e fui alertado por um casal sentado em um banco de jardim.

Matanzas

Aproveitei a oportunidade para ficar junto com eles. O homem, um negro alto, forte, taciturno, me impressionou pela sua atividade revolucionária. Ele lutou nas tropas que Fidel enviou para Angola em 1975 e 1986, participou de missões perigosas na Namíbia, Guiné-Bissau, e aprendeu alemão na antiga Alemanha Oriental. Foi a época em que Cuba, protegida pelo poderio atômico da União Soviética, tentava exportar a revolução. Embora triste e desesperançado, o antigo soldado guardava muita dignidade e eu fiquei indeciso em lhe oferecer dinheiro em troca da amabilidade de haver conversado comigo. No momento exato em que lhe estendi algumas notas de dólares, ele entrou em pânico porque um carro da polícia estacionou na praça. Pediu, por favor, para que eu me levantasse e fosse embora. Saí muito preocupado, sem saber se aconteceria alguma coisa séria. Quando o carro se foi, eu voltei, passei por ele sem me deter, e pedi para que os dois me acompanhassem até o hotel. Ele respondeu sem olhar para mim : “O senhor vai na nossa frente.” E lá fomos nós, o casal me seguindo, muito atrás. Barra pesada.

No hotel, o melhor da cidade, a mesma displicência dos funcionários do Estado. A arrumadeira nunca apareceu para fazer a cama, e nada de água quente no chuveiro.

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FidelFidel fez a revolução em 1959, depois, portanto, dos crimes de Stalin haverem sido denunciados em 1956 por Kruschev. O partido comunista italiano já lutava por sua independência frente à Rússia. O presidente Tito, da Iugoslávia, há muito tempo havia rompido com seus patrões. A Hungria havia se revoltado em 1956, tentando se libertar do domínio soviético. Embora o apelo do socialismo fosse forte, Fidel tinha opções. Escolheu se atrelar completamente aos russos. Escolheu o regime que, como regra, perpetua quem chega ao poder. Não foi bobo. Ele não seria mais um ditadorzinho latino-americano.

Sobre os famosos carros americanos das décadas de 40 e 50 e início de 60, que circulam por toda Cuba, eu só posso dizer que são maravilhosos. Enfeitam as cidades. Os charutos são oferecidos no mercado paralelo. O cara passa por você e sussurra : “Choibas”? Está se referindo aos fabulosos “Choibas Esplendidos”, que custam 440 dólares a caixa nas tabacarias (25 charutos), e que eles vendem até por 40 dólares às escondidas. Em Londres, valem 800 libras, ou 1.500 dólares (60 dólares cada charuto).

Tabacaria

Resolvi aceitar o convite de um desses malandros e entrei num lugar que, se fosse no Brasil, eu jamais sairia com vida. Dentro do pardieiro havia mais uns cinco picaretas me esperando. Pude ver todas as grandes marcas. Os charutos são falsos? Muito difícil dizer. Olhei alguns. As caixas são roubadas, os selos são roubados. Por quê não os charutos? Comprei por 40 dólares os “Romeo y Julieta”, tipo Churchill. Passei o resto da viagem mostrando para pessoas que se diziam entendidas em charutos, o que, aliás, envolve todos os cubanos. São falsos? A quase totalidade disse que eram verdadeiros, mas houve um técnico em uma loja que me pediu licença para abrir um deles. Cortou e começou a desenrolar as folhas, uma por uma. As últimas, que formam uma espécie de tripinha, no meio do charuto, eram meio esverdeadas e tinham o cheiro ruim. Charuto falso. Descobri finalmente, com toda certeza: os que não forem comprados nas tabacarias são pura armação. E os das tabacarias ainda podem ser velhos e ruins. Simplificando: para se ter um bom charuto cubano só comprando fora de Cuba.

Fidel construiu uma praça brega, imensa, caríssima, em frente à embaixada americana. É toda modernosa, com palmeiras feitas de ferro e lata. Colocou uma estátua do José Marti, o chatíssimo poeta cubano, com o braço estendido apontando para a embaixada. No seu colo, aquele menino, o Elian, que estava muito bem em Miami, morando com parentes exilados e que a justiça americana resolveu condenar à prisão, mandando-o para Cuba viver com o pai. O nome da praça é Elian, uma demagogia tão barata que nem os cubanos engoliram. Em uma marina em Varadero, vi que Elian é o feliz possuidor de uma pequena lancha. É o governo se garantindo. Tudo para manter o menino na ilha. E se amanhã o pai passar a mão no garoto e fugir? Tremendo escândalo.

Caminhando pelas ruas principais de Matanzas e Cardenas, preciso tomar cuidado para não colocar o pé no rio de esgoto ao lado da calçada. Nessas cidades são poucos os turistas, então você sente muito mais as mazelas do regime. Ué, mas não estava resolvido o problema de saúde pública e de saneamento básico? Pergunto para um cubano, que resolve mentir e contar uma história ridícula, para explicar a água esverdeada e de cheiro inconfundível. O outro fala baixo e diz que é esgoto mesmo.

Comércio Cubano

Verdurinhas

Passei mal no hotel em Vinales, a região onde plantam o tabaco dos charutos. Pensei que estava com pneumonia, e corri para o hospital. Tudo caindo aos pedaços. O aparelho russo de raios X é jurássico. Todo canibalizado. Cada parte com uma cor diferente. O médico, muito novo, acreditou nos meus elogios irônicos à medicina cubana, tão famosa no mundo todo. No fim, fiquei tão satisfeito por ser apenas uma gripe, que dei a ele 10 dólares. Procurou manter a pose, mas estava encantado por estar recebendo quase metade do seu salário de um mês, por haver examinado a minha radiografia. Para o enfermeiro, que me atendeu no hotel, e coordenou tudo, o milionário brasileiro deu 20 dólares.

Cuba rivaliza com a Coréia do Norte na escuridão das ruas. Alguns lugares simplesmente não têm iluminação. Nos hotéis, as lâmpadas são tôdas de 20, 40 watts, no máximo.

Fiz amizade com o gerente de uma tabacaria. Você sempre pensa que é o dono, até se lembrar que está num país comunista. Ele é moço e esperto. Ficou com os olhos acesos, quando eu disse que o regime vai cair e que provavelmente ele vai ser o dono do negócio. Não abriu a boca, mas tirou do bolso um “puro” da marca Partagas e me deu “como regalo”, como presente. Eu quis comprar um Cohiba avulso. Ele custou a encontrar uma caixa que pudesse desfalcar. Quando falou o preço, eu desisti : 17 dólares, ou, três quartos do salário de um médico.

Não encontro o cara que aluga as motos e carros na cidade de Trinidad. Nunca está. É funcionário público, e para ele tanto faz me atender ou não.

Eu fiz um comício na lanchonete da parada do ônibus de turismo. Discuti com uma mulher que é comunista de carteirinha, dirigente do Partido de uma pequena cidade. Tudo aos berros bem humorados de parte a parte. Muita gente olhando. Ela, no meio do debate, me perguntou se eu gostava do Pinochet. Eu respondi que mais ou menos. Uivos na platéia. Aí eu perguntei o que ela achava de Stalin. Ela disse que “foi um homem que cometeu alguns erros, feito qualquer outro homem. Acertou 70% e errou 30%”. Risos discretos. Eu achei interessantíssimo, porquê é exatamente o que dizem de Mao-Tsé Tung, na China. Provavelmente, trata-se de uma “palavra de ordem” do Partido Comunista para as figuras que perderam seu status. Resolvi ir direto à questão: – “E você, que nem pode sair do seu país porque é proibido!” A resposta estava na ponta da língua:
“Sair pra quê? Pra ver gente passando fome, crianças dormindo nas ruas? Eu prefiro não sair!”
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O que dá pra perceber nessa gente é a profunda auto-piedade. Desde o principio da revolução, faz parte da propaganda política cubana mostrar o país como eternamente perseguido pelos imperialistas, como se os Estados Unidos não tivessem outro problema que não fosse encontrar maneiras de sabotar, perseguir, atormentar Cuba. Sem o seu torturador, os comunistas cubanos não saberiam como viver.

De qualquer forma, eles tiveram o seu grande momento. Nenhuma nação latino-americana jamais foi tão importante quanto Cuba durante a crise dos mísseis em 1962. Se dependesse de Fidel, teria havido a guerra nuclear, mas os russos preferiram dar uma banana para ele e o mundo seguiu o seu caminho. Fotografei, de longe, um dos foguetaços deixados para trás e que hoje está na fortaleza de La Cabana. Não se pode chegar perto e os cubanos nem sabem que ele existe. O que é que os cubanos sabem?

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Todos os discursos terminam do mesmo jeito: “Viva Raul!, Viva Cienfuegos, Viva Che! Pátria o Muerte”! Assisti pela televisão uma menina discursando e falando sobre aumentar o turismo “para que esses ricos que vêm a Cuba possam gastar mais, ajudando a economia cubana.” Querem que o povo acredite que nós, os turistas, somos milionários, por isso é que somos tão bem vestidos, por isso é que podemos viajar. Esse lado do regime é realmente obsceno. No ônibus que é só para nós, os ricos, existe uma televisão onde passa um comercial que insiste em dizer que uma firma que aluga carros, tem “preços competitivos”. Obsceno, porque só o turista vê e ouve uma coisa tão capitalista.

Nos cafés, sempre peço para que toquem a mundialmente famosa “Comandante Che Guevara “. É bonita e melancólica. Os cubanos gostam muito do Che. Vão cantando melodiosamente, tristemente. Cienfuegos também é popular.

Em Havana, no mercado de livros antigos, comprei, por dez dólares, um capa dura com fotografias de Lenin. Está escrito em espanhol, mas foi editado na Rússia. O amável dono da pequena banca, me disse, didáticamente, que Lenin tinha sido um homem muito bom. Quando eu iniciei a minha catilinária anti-comunista, ele resolveu chamar “uma pessoa muito culta, que me daria todas as respostas” . Fui apresentado a um senhor negro, idoso, que foi logo dizendo que tinha dois filhos com curso superior. O primeiro havia se formado na universidade Patrício Lumumba, em Moscou, e o outro na antiga Alemanha Oriental. Olhando firme para mim, completou: – “Em que outro país do mundo uma pessoa pobre como eu conseguiria isso?” Tive que concordar que, provavelmente, só mesmo em Cuba.
Cubana11
Fiquei muito conhecido e voltei várias vezes para conversas ótimas. Já chegava escancarando: “Amigos revolucionários buenos dias!”. Eles são empresários. Pagam 5 dólares por dia ao governo, mas ficam com o dinheiro dos livros. Não vendem nada. Também o que eles têm são coisas assim: “Che Guevara – Obras Escolhidas” , “Che Guevara – Temas econômicos”, “Fidel Castro – A História me absolverá” Quiseram me empurrar uma coleção de selos de charutos, supostamente antiga, por 200 dólares. Quando eu fiquei espantado com o preço, ele me disse que sabia muito bem que no Brasil eu venderia por 20 vezes mais o que estava pagando. Imaginam que um turista pode ganhar um dinheirão comprando coisas deles e vendendo em seu país. É difícil convencê-los de que se trata de pura fantasia, e que, além do mais, o turismo em Cuba não é barato.

O jovem soldado na fortaleza de La Cabana estava muito bem fardado. Deu as infomações corretamente. Muito enquadrado. Muito posudo. Depois pediu propina. Ah, Cuba!
PoderososCanhoes
Missil

4 junho, 2009 às 20:38

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Comentários (8)

 

  1. Terezinha Abreu disse:

    Muito bom o seu documentário, você descreve com precisão a
    pobre vida dos hermanos revolucionários ou não.
    A natureza privilegiou o local , pena que esse paraiso não pode ser
    usufruido dignamente por seus moradores.
    Essa reportagem precisaria ser publicada em algum veículo de grande
    circulação, se você conseguir nos informe.
    Parabéns!

  2. AVELINO disse:

    SE O BRASIL TIVESSE PELO MENOS 10% DE NÍVEL CULTURAL QUE O POVO CUBANO TEM, NÓS ESTARIAMOS MUITO BEM.

    PORÉM, A INVERSÃO DE VALORES NO BRASIL, DE UMA MINORIA TER CARRÕES, CASONAS E ROUPAS CARÍSSIMAS, EM QUANTO A GRANDE MAIORIA VIVE NUMA POBREZA MUITO MAIOR DO QUE OS CUBANOS, É MAIS VÁLIDA DO QUE TER CULTURA…

    INFELIZMENTE, NÃO É UMA DESCULPA, CUBA NÃO VIRA UMA GRANDE POTÊNCIA, POIS É ESTREMAMENTE BOICOITADA PELOS USA.

    UM PAÍS TÃO PEQUENO E SOFRENDO ESSE BLOQUEIO ECONOMICO PREDADOR E HORRENDO, AINDA CONSEGUE TER O MENOR ÍNDICE DE ANALFABETISMO DA AMÉRICA E TAMBÉM SER REFERÊNCIA NA MEDICINA E NO ESPORTE MUNDIAL.

    QUE PAÍS DA AMERICA LATINA TEM ISSO?????

    INVERSÃO DE VALORES….

    TADINHOS DE NÓS, COM ESSA FAVELADA DO RIO DE JANEIRO, VIOLENCIA EM SÃO PAULO…

    E A NOSSA POBRESSA É MAIS GRAVE, É CULTURAL….

    • bruno disse:

      Senhor, Avelino se você acha tão lindo viver de baixo do punho de ferro do regime cubano, mude-se para lá. Vá viver como o cidadão comum cubano vive, e ah, não como os membros do partidão.

      SE O BRASIL TIVESSE PELO MENOS 10% DE NÍVEL CULTURAL QUE O POVO CUBANO TEM, NÓS ESTARIAMOS MUITO BEM.
      Então para o senhor lavagem cerebral, doutrinação é educação? pobre de você.

      “UMA MINORIA TER CARRÕES, CASONAS E ROUPAS CARÍSSIMAS, EM QUANTO A GRANDE MAIORIA VIVE NUMA POBREZA”
      É exatamente assim que é o regime cubano, os membros do partido vivem no fausto e o povo na miséria.
      “CUBA NÃO VIRA UMA GRANDE POTÊNCIA, POIS É ESTREMAMENTE BOICOITADA PELOS USA.”
      Cuba jamais será potência pois o comunismo não presta nem nunca construiu nada além de terror e miséria nos países em que colocou suas garras o tal “bloqueio americano” só proíbe que empresas americanas negociem com Cuba, o resto do mundo, Europa, o Brasil, dentre outros países, negociam com Cuba, e o país continua na merda, pois o regime comunista cubano é autoritário e incompetente.

      • avelino disse:

        KKKKK
        EU NÃO SOU COMUNISTA, NEM CAPITALISTA OU QUALQUER OUTRA DENOMINAÇÃO POLÍTICA QUE EXISTA…

        ACREDITO QUE CULTURA, SAÚDE E SEGURANÇA SÃO FUNDAMENTAIS PARA UMA NAÇÃO.

        OS CUBANOS REALMENTE NÃO TEM A “LIBERDADE UTÓPICA QUE VOCÊ BRUNO E EU TEMOS”.

        NO ENTANTO ELES NÃO TEM NENHUM RISCO DE ALGUM LUNÁTICO DE PEDRA LHE PARAR NO SINALEIRO E LHE ROUBAR POR QUALQUER COISA, ELES NÃO TEM MEDO DE SAIR À NOITE E SER ASSALTADO…
        O ENSINO PÚBLICO É DE QUALIDADE… TODOS TEM ACESSO A SAÚDE PUBLICA COM MELHOR QUALIDADE DO QUE A NOSSA… SEM PRECISAR PAGAR POR ISSO…

        NO ENTANTO, NÓS PARA TERMOS UM BOM ESTUDO TEMOS QUE PAGAR, SEGURANÇA TEMOS QUE PAGAR, O USO DE DROGA É ENDEMICA NO PAÍS, VOCÊ FICA COM MEDO DE SEU FILHO SE ENVOLVER COM DROGA, POIS ELA ESTÁ EM TODOS OS LADOS….

        TODA E QUALQUER EMPRESA QUE VENHA A NEGOCIAR COM CUBA, AUTOMATICAMENTE É BOICOITADA TAMBÉM… UM EXEPLO É A REDE HOTEIS ESPANHOES MELIÁ, ELES TIVERAM QUE FECHAR VÁRIAS UNIDADE NOS EUA POR ESCOLHEREM CUBA PARA ADMINISTRAR AS REDES HOTELEIRAS…ISSO É RIDÍCULO!!!!!

        ahhhh MAIS LÁ TEM PROSTITUIÇÃO, É UMA HIPOCRESIA TÃO GRANDE QUE ME DÁ NOJO DE OUVIR ,JAPÃO, HOLANDA, ITÁLIA, SUÍÇA, EUA, TEM PROSTITUIÇÃO… INCLUSIVE NA ALEMANHA AS PROSTITUTAS ESTÃO PAGANDO IMPOSTOS PELOS SERVIÇÕS……

        EU FIQUEI 3 MESES EM CUBA, E ALGO QUE NÃO TEM PREÇO BRUNO É VOCÊ CONVERSAR COM QUALQUER CUBANO E ELES TE OLHAM NO OLHO SEM ESTEREÓTIPOS DE COITADINHOS COMO SE VÊ AQUI. A GRANDE MAIORIA FALAM 2 OU 3 LIGUAS, E ESSE OLHAR VOCÊ SÓ CONQUISTAS ATRAVÉS DA CULTURA…

        CONCORDO QUE MUITAS COISAS ESTÃO ERRADAS, COMO EM QUALQUER PAÍS, NO ENTANTO OS VALORES FUNDAMENTAIS ELES TEM ACESSO…

        LÁ, TRAFICANETE LEVA BALA NA CABEÇA…

        INFELIZMENTE HÁ UMA GUERRA DE IDEOLOGIAS, E QUEM PAGA É O POVO.

        MAS VOU TE FALAR UMA COISA, LÁ É MUITO BONITO… PRA MERGULHAR, PESCAR… ALÉM DE TER UMA ARQUITETURA MARAVILHOSA PARA QUEM GOSTA DE TIRAR FOTOS…

        ACREDITO QUE VC DEVERIA FAZER UM BLOG QUE MOSTRASSE A POBREZA AQUI DO BRASIL, A CORRUPÇÃO ESCANCARADA, A VIOLENCIA, QUE MORRE MAIS GENTE DO QUE NO IRAQUE….

        MAS É ISSO…

        UM FRATERNAL abraço

        • claudiomafra disse:

          Vamos discordando em nosso pequeno debate. Acho que o amigo segue a linha: ” liberdade política sem liberdade econômica é liberdade de passar fome”. Um fraternal abraço também.

  3. Lucas disse:

    Esta certissimo senhor bruno! E ainda acrescento mais o brasil é muito violento e tem muita pobreza mas ha uma grande vantagem!!!! Morei no lixao da estrutural por 10 anos,passei fome,mas estudo e trabalho hj tenho uma boua qualidade de vida, eis a grande vantagem do brasil que apesar de explorador, com trabalho e dedicaçao vc consegue chegar no topo,coisa que em cuba vc NUNCA conseguiria…… E ainda tem gente que defende esse regime absurdo de cuba…. Vai entender…

  4. Lucas disse:

    Hey claudio mafra, a mulher da foto que estava andando de bicicleta,e a da foto acima dos misseis e canhoes,na banca,sao cubanas? Me falaram que as cubanas eram feias… Estas sao ate bonitas rsrsrsr…… E é verdade que existe uma mafia de filmes pornograficos em cuba? Alguma scomandadas ate por diplomatas? Obrigado gostaria de resposta…

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