Socialismo, anti-americanismo, a lavagem cerebral – PRIMEIRA PARTE

 

Carta para um amigo.

Nós tinhamos a opção de  acreditar em nossos pais: Os Estados Unidos eram um exemplo que deveríamos seguir, enquanto o Brasil aos poucos se desenvolvia e se tornava melhor com a prática democrática. Eles conheciam o comunismo de antes da 2a. Guerra Mundial e tinham por ele um horror único e plenamente justificado Estavam vacinados contra a lavagem cerebral que, interagindo com a Guerra Fria, seria o próximo capítulo que a história preparava. Eles conseguiram pela simples leitura dos jornais, por ouvirem o rádio, e noticiários cinematográficos ( que não existem mais ), chegar com facilidade ao que nos demandou anos de confusão mental. Demoramos a perceber que não se tratava de capitalismo versus socialismo, mas de LIBERDADE versus socialismo. Capitalismo não é uma ideologia, ao contrário do que é ensinado nas universidades.

 

Em nossa juventude tínhamos reservas quanto ao comunismo porque essa palavra se tornou maldita para toda a eternidade, mas foi dificil escapar do fascínio do socialismo, embora nunca entendessemos direito a diferença entre uma coisa e outra. Achávamos que o comunismo estaria diretamente ligado às URSS, que era encarada por nós com desconfiança, mas o socialismo seria a cura dos males do mundo, tudo de bom , nada a ver com a crueldade russa. Era essa a nossa ingenuidade.

 

Nossos pais aceitavam o regime no qual foram criados, e sua única  preocupação era escolher os melhores nomes para o governo, sem questionar o sistema econômico, os meios de produção ( eles nem sabiam o que era isso). Para nós a opção socialista era mais sedutora. Iríamos, rapidamente, muito rapidamente, participar de um processo que resolveria os problemas do mundo. Claro que está ligada ao poder. Você tem muita razão quando disse que nunca conheceu um desses socialistas que não julgasse que estaria na linha de frente ( não da batalha física) , mas no sentido de ser um dos dirigentes, um dos poderosos. Perfeito. Então ficamos assim : a) a necessidade de irmos contra o mundo que herdáramos, o que é o milenar conflito de gerações b) seríamos poderosos c ) a causa era nobre, os operários eram fracos, embora potencialmente fortíssimos, e nós, instruídos, deveríamos cuidar deles, conscientiza-los, pois o mundo lhes pertencia ( embora, como foi dito, esse mundo seria dirigido por nós).

 

Em sua maior parte os professores universitários já haviam se convertidos ao socialismo, e por sua vez nos convenciam, e nós saíamos tentando convencer os outros. Nada disso era premeditado, ou malicioso. Todos acreditavam com sinceridade naqueles valores. A malícia, o jogo político imoral, “os fins justificam os meios” pareciam um monopólio dos comunistas, com o qual tínhamos um diálogo amistoso, mas, como eu disse, a palavra comunismo ainda era dura, perturbadora, e tínhamos muitas dúvidas sobre a URSS. Jamais pensamos em seguir diretrizes vindas dos russos. Os que optaram pelo comunismo eram uma minoria, embora melhor preparados para uma eventual revolução.Tratava-se (trata-se) de uma religião fanática. “Melhor errado dentro do Partido do que certo fora do Partido” define o verdadeiro comunista.

 

Nossa opção pelo socialismo foi aproveitada com maestria pelos bolcheviques, pelos russos. Eles sim, estavam muito conscientes das táticas de propaganda, e de que maneira poderiam manipular as pessoas. Esta é a lavagem cerebral, que para mim tem seu começo imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, quando o comunismo deixou de ser considerado bárbaro, e passou a se visto como civilizado, de convivência possível. Foi  quando Stalin mudou de status: deixou de ser um  monstro impiedoso e cruel,  e tornou-se um simpático e bem intencionado aliado, um bom amigo na luta contra Hitler. O tio José, como foi chamado pelo presidente Truman. Até Churchill, que comandou uma cruzada anti-bolchevique logo após a grande revolução russa, em 1917, e que desejava uma invasão da Rússia para exterminar Lenin e Cia., ficou cego pelo ódio que sentia por Hitler, e se deixou levar pelo fascínio do carisma de Stalin – (simplifico bastante para que o texto não fique ainda maior).

 

Interessante é o fato de que nossos pais não seguiram o comportamento dos grandes líderes democráticos. Tinham consciência de que aquela aliança era provisória, e que de fato Stalin era perverso, e nosso inimigo. Nessa época meu pai dizia que se Hitler, em 1941 durante a invasão da URSS, houvesse tratado bem os ucranianos e russos, esses teriam apoiado o exército alemão para se verem livres do comunismo. Esse argumento é discutido em bons livros sobre a guerra.

Desta maneira, libertos do estigma da maldade, estando o repúdio mundial amortecido em virtude da espetacular vitória dos russos sobre os vilões alemães, o momento foi soberbamente aproveitado por Stalin. Conjugando dois fatores : a sedução de um mundo com justiça social completa -ainda em nosso tempo de vida – e a liberdade para cooptar milhões, os soviéticos conseguiram através da sua própria existência como centro irradiador de poder, fazer uma propaganda sem igual das ideias comunistas (socialistas para nós) que é o começo do que eu queria dizer. A maneira como usaram esses dois fatores foi perfeita, e aqueles que não haviam vivido o período anterior à guerra embarcaram na onda anti-capitalismo, no repúdio à relação patrão/empregado.

 

É importante assinalar como a ingenuidade americana ajudou os russos e prejudicou o mundo que começava a ser vítima da lavagem cerebral. Até  1947  os Estados Unidos recusavam-se, contra todas as evidências, a acreditar que Stalin e o Politiburo formassem uma quadrilha brutal, assassinos dispostos a tudo, e que tinham como único objetivo conquistar o mundo. Julgavam que o relacionamento EUA / Rússia estava repleto de mal-entendidos por parte dos comunas. Consideravam que eram desconfiados e reagiam pela confrontação por não entender as boas intenções americanas! Foi preciso que um Secretário na embaixada dos Estados Unidos em Moscou, George Kenann, na ausência do embaixador, enviasse para o Depto. de Estado o que veio a ser conhecido como ” o longo telegrama”.  Em oito mil palavras Kenann dizia que não havia nenhum mal entendido, que os americanos estavam bancando os trouxas, que o objetivo dos bolcheviques era expandir o comunismo para o mundo e que para isso usariam a força, o terror, a propaganda, a difamação, e tudo que fosse necessário, sem nenhum freio moral. O texto, extremamente dramático, mudou a direção da política americana. Finalmente os EUA entenderam o que tinham pela frente. Foi o início da  política de “contenção” por parte do governo americano, isto é, não permitir o expansionismo comunista. Assim começou a Guerra Fria.

(fim da Primeira Parte)

 

23 fevereiro, 2012 às 20:39

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Categoria: Artigos

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