Tragédia e Arte em Chaplin (Ubiratan Brasil)

 

 

Foto sensacional. Chaplin com a mulher Oona e seis dos dez filhos: mais de 80 filmes, entre longas e curtas-metragens, com ecos da infância infeliz. Todos, muito sérios,  estão lendo sua auto-biografia. (nota do blog)

Com apenas 7 anos, Charles Chaplin foi levado em uma carroça até um orfanato, iniciando a angustiante fase em que viveu separado da mãe Hannah e do meio-irmão mais velho Sydney. Aquele trajeto percorrido em 1896 foi tão marcante que, anos depois, já aclamado como um dos maiores comediantes da história do cinema, Chaplin inspirou-se na lembrança para a criação de cenas clássicas de seus filmes. 

Basta observar o momento em que a jovem que acabara de ficar órfã (Paulette Goddard) em Tempos Modernos é carregada em uma carroça, assim como o menino de O Garoto, arrastado da mesma forma. “E as tristes lembranças de orfanato, onde teve a cabeça raspada para evitar piolho, podem ter sido fonte para a maravilhosa cena do circo de pulgas que marcou a volta do palhaço Calvero, em Luzes da Ribalta”, completa o psicanalista americano Stephen Weissman, que estudou durante anos a vida e obra do comediante para escrever Chaplin – Uma Vida (tradução Alex Martins, 322 páginas, R$ 44,90), lançado agora pela Larousse do Brasil.

Seu ponto de partida era encontrar, nos mais de 80 filmes (entre longas e curtas) realizados por Chaplin, ecos de sua infância terrível. Filho de artistas que logo entraram em decadência (Hannah, enlouquecida, teve de se separar dos filhos por conta da extrema miséria enquanto o pai, Charlie Chaplin Sr., definhou por conta do alcoolismo), o comediante, no entender de Weissman, transformou tragédias pessoais em comédia universal.

Claro que ele não deixa Freud de lado, especialmente a teoria sobre a mente cômica funcionar como um caldeirão do id que, de forma automática, transforma medos infantis em brincadeiras inocentes, cuspidas periodicamente pelo inconsciente. Mas, diferente da grande maioria dos mortais, Chaplin exibia um talento incomum para realizar tal processo.

Ao se aprofundar nas pesquisas, Weissman descobriu, por exemplo, que a mãe do comediante morrera em decorrência de uma sífilis contraída quando viveu na África. A notícia, quando divulgada, despertou a ira dos descendentes de Chaplin – Geraldine, a filha mais velha, ameaçou processá-lo. Mas a farta documentação convenceu os herdeiros que a visão edulcorada da mãe, apresentada pelo comediante em sua autobiografia Minha Vida (José Olympio), não passava de uma homenagem – afinal, mesmo abalada pela miséria e pelos efeitos dolorosos da doença (sentia longas e terríveis dores de cabeça), Hannah percebia no filho caçula um talento incomum. Sobre o assunto, Weissman, que pretende vir ao Brasil no próximo ano dar palestras a respeito do livro, respondeu às seguintes perguntas por e-mail.

Chaplin não era um homem tão transparente como parecia dizer Freud, ao escrever que o comediante sempre representou a si mesmo, em sua época de infância.

Claro, a genialidade de Chaplin não pode ser resumida em uma frase (seja de Freud ou de qualquer outro). É verdade que Chaplin transformou a memória de sua dolorosa infância em roteiros. Mas a forma com que ele conseguiu isso é tema de um livro inteiro. O comentário de Freud grosseiramente simplifica a forma criativa do trabalho do comediante. Mas é bom lembrar que sua observação foi escrita aleatoriamente em uma carta inédita – ele nunca pretendeu que essa declaração servisse como uma explicação psicanalítica abrangente de como a vida e a arte de Chaplin estavam relacionados. Chaplin – Uma Vida foi escrito para lidar com esse relacionamento.

Seu livro, aliás, não tem a pretensão de ser uma biografia completa, mas deixa de lado assuntos aparentemente importantes, como a discussão de Chaplin com Mary Pickford, Douglas Fairbanks e D.W. Griffith, em 1919, quando formaram uma parceria. Por quê?

Mais de mil livros já foram escritos sobre a carreira cinematográfica de Chaplin. O meu enfoca exclusivamente a inexplorada conexão psicológica entre a vida de Chaplin e a arte. A formação da United Artists em 1919 (por Pickford, Fairbanks, Griffith e Chaplin) não é relevante para um estudo psicanalítico de seus filmes, exceto talvez por um comentário espirituoso de que os “loucos tomaram conta do hospício”.

Chaplin pouco visitou a mãe e também pouco falava sobre ela com os amigos. Por que ela permaneceu como uma figura quase ficcional em sua memória de infância?

Embora tivesse confidenciado a triste história da doença mental de sua bela e jovem mãe – que ele tratava como fruto de uma “trágica promiscuidade” – a poucos amigos, Chaplin considerava essa informação privada. Quando publicou sua autobiografia (1964), ele preferiu rememorar a história dela com dignidade. Ele sabia qual era a causa médica da enfermidade da mãe, mas foi lacônico ao tratar da sífilis e de como ela foi contraída. Preferindo retratá-la como uma heroína martirizada, Chaplin apenas tratou de como a fome severa, a desnutrição e a pobreza contribuíram para a sua loucura.

O livro, escrito em forma narrativa, é baseado em extensa pesquisa sobre a vida pessoal de Chaplin. De onde surgiu tamanho interesse?

Mesmo hoje em favelas do Rio, nos bairros de Los Angeles ou nas favelas de Mumbai e Soweto, há crianças emocionalmente resistentes como Charlie Chaplin. Como psicanalista, me emociono e fascino pela histórias de crianças carentes incrivelmente dotadas que, de alguma maneira, conseguem sobreviver às adversidades, evitando o papel de vítimas e crescendo para se tornar adultos de sucesso, que conquistam o que querem. Criado em meio a uma pobreza dickensiana no fim do século 19, Chaplin perdeu a mãe para a loucura e o pai para o alcoolismo. Às vezes dormia nas ruas e, com fome, buscava comida na lata do lixo. Durante um período de 18 meses que passou em um orfanato, quando tinha 7 anos, Charlie lidou com seu medo e solidão interpretando papéis em um mundo de fantasia no qual ele já era “o maior ator do mundo”. Escrevi o livro para tentar descobrir como uma criança de imaginação incrível conseguiu levar à vida adulta e adaptar a ela aquele sonho acordado da infância. Chaplin literalmente foi da pobreza ao status de mais famoso ser humano de todo o mundo. Ou, como um resenhista do livro colocou, “Chaplin não era apenas grande, era gigantesco. Em 1915, ele irrompeu em um mundo marcado pela guerra oferecendo o dom da comédia, do riso e do alívio. Ao longo dos próximos 25 anos, durante a Grande Depressão e a ascensão de Hitler, continuou seu trabalho. É difícil que outro indivíduo tenha dado tanto entretenimento, prazer e alívio para os homens quando eles mais precisaram”.

É possível imaginar como teria sido a carreira de Chaplin se tivesse crescido em contexto diferente?

Não sei o que ele teria sido. Mas não teria sido Chaplin.

COMO A VIDA INTERFERE NA ARTE
Vida real
Hannah Chaplin, mãe do comediante, rendeu-se à sedução de um suposto milionário e o acompanhou para a África do Sul. Lá, descobriu que fora enganada e, além de contrair sífilis, foi obrigada a se prostituir.

Uma das imitações que Chaplin fazia quando criança e que mais agradava à sua mãe era de um vagabundo que vivia próximo deles e cujo andar era peculiar, especialmente quando tentava domar seu cavalo.

Chaplin, então com 7 anos, foi admitido em um orfanato inglês em 18 de junho de 1896. A viagem de 19 quilômetros que empreendeu até lá, em uma carroça, marcou o fim da vida razoavelmente boa que tinha com a mãe.
Ficção
No filme Em Busca do Ouro, de 1925, um de seus primeiros longas, Charles Chaplin criou uma cena tocante que mostra seu famoso personagem, o vagabundo, consolando uma prostituta deprimida.

A cena mais tocante de O Garoto (1921) é justamente a que o menino (vivido por Jackie Coogan) é levado por funcionários de um orfanato. Para ajudar no realismo, Chaplin disse a Coogan que os homens realmente o levariam.

QUEM É Nascido em 1937, nos Estados Unidos, Weissman é filho de pais fanáticos pelas comédias de Charles Chaplin e também antifascistas. As duas tendências acompanharam sua formação pessoal e acadêmica. Depois de 13 anos estudando medicina e psiquiatria em Washington, ele iniciou um período de mais de 40 anos de estudos sobre como a vida pessoal interfere e colabora na criatividade artística das pessoas, estudo que culminou com a publicação de Chaplin – Uma Vida. Em sua rotina médica, Weissman incentiva os pacientes a escreverem a própria biografia como processo terapêutico.

STEPHEN WEISSMAN
PSICANALISTA E ESCRITOR

( publicado no Estadão em 28 de abril de 2010)

24 abril, 2010 às 00:07

Tags:

Categoria: Artigos

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

* Copy This Password *

* Type Or Paste Password Here *