Um sutil artigo de Kissinger sobre a Primavera Árabe e a dificílima posição americana

Um importante aspecto da Primavera Árabe é a redefinição dos princípios de política externa adotados até o momento. À medida que os Estados Unidos retiram suas forças militares do Iraque e do Afeganistão, mobilizadas em nome da (embora discutida) segurança nacional americana, o país vem se envolvendo em outros Estados da região (embora sem muita certeza) em nome da intervenção humanitária. nota do blog: Quando Kissinger coloca palavras entre parênteses é preciso ficar atento para não se entender mal o que ele quer dizer. O exemplo perfeito é o (embora discutida) , logo acima. Kissinger óbviamente concorda que as intervenções no Afeganistão e Iraque foram legítimas políticas  de segurança nacional, é já o explicitou em outros artigos. O presente texto elegantemente coloca em dúvida o ôba, ôba a respeito da Primavera Árabe.

Kissinger é, de longe, o melhor, o mais fino articulista que podemos encontrar. 

A reconstrução democrática substituirá o interesse nacional como a bússola da política no Oriente Médio? E a Primavera Árabe representa realmente a reconstrução democrática? Quais são seus critérios? O consenso que se vem criando gradualmente é que os EUA estão moralmente obrigados a se alinhar com os movimentos revolucionários no Oriente Médio como uma espécie de compensação pelas políticas adotadas na Guerra Fria (descritas invariavelmente como equivocadas), quando o país cooperou com governos não democráticos da região por razões de segurança. E o que se alega também é que o apoio fornecido a governos frágeis em nome da estabilidade internacional criou uma instabilidade permanente. Mesmo concordando que algumas das políticas da Guerra Fria continuaram mesmo depois que não tinham mais utilidade, sua estrutura durou 30 anos e provocou transformações estratégicas decisivas, como o abandono pelo Egito de sua aliança com a União Soviética e a assinatura dos Acordos de Camp David. Se não se estabelecer uma relação apropriada com as metas proclamadas, a estratégia adotada agora corre o risco de ser inerentemente instável desde sua aplicação, o que pode fazer naufragar os valores que ela proclama.

A Primavera Árabe de um modo geral é apresentada como uma revolução liderada pela juventude em nome de princípios liberais democráticos.

Mas a Líbia não é governada por essas forças; dificilmente podemos dizer que a Líbia hoje é um Estado. Tampouco o Egito, cuja maioria de eleitores é esmagadoramente islâmica; e os democratas também não parecem predominar na oposição síria. Dentro da Liga Árabe, os países que chegaram a um consenso no caso da Síria não se destacam pela prática ou defesa da democracia. Esse consenso, pelo contrário, reflete em grande parte o conflito milenar entre xiitas e sunitas.

A confluência de muitas reivindicações díspares, declaradas em slogans gerais, não constitui ainda um resultado democrático. Com a vitória, surge a necessidade de aprimorar a evolução democrática e estabelecer um novo centro de autoridade. Quanto mais avassaladora a destruição da ordem existente, mais difícil será o estabelecimento da ordem interna e o mais provável será o recurso à força ou a imposição de uma ideologia universal. E quanto mais fragmentada a sociedade, maior a tentação de fomentar a unidade recorrendo a uma mistura de nacionalismo e islamismo tendo como alvo valores ocidentais ou objetivos sociais.

A derrocada da estrutura existente é um bilhete de entrada para um processo lacerante. Precisamos tomar cuidado numa era em que os momentos de atenção são cada vez mais curtos, com a possibilidade de as revoluções se tornarem uma experiência de internet transitória para o mundo exterior – observada atentamente por alguns instantes cruciais e depois esquecida tão logo o evento principal seja dado como encerrado. A revolução terá de ser julgada por seu destino, não sua origem; seus resultados, não suas proclamações.

As preocupações humanitárias não extinguem a necessidade de relacionar o interesse nacional a um conceito de ordem mundial. Para os EUA, uma doutrina de intervenção humanitária no caso das revoluções no Oriente Médio será insustentável, a menos que ligada a um conceito de segurança nacional. A intervenção implica considerar o significado estratégico e a coesão social de um país (incluindo a possibilidade de fraturar sua complexa estrutura sectária) e avaliar o que pode ser construído no lugar do antigo regime.

A opinião pública americana já rejeitou os esforços exigidos para transformar o Vietnã, o Iraque e o Afeganistão. Acreditamos que um envolvimento americano menos explicitamente estratégico, renunciando a um interesse nacional americano, poderá tornar o projeto de construir uma nação menos complexo? Devemos ter uma preferência quanto a que grupos assumirão o poder? Ou seremos agnósticos enquanto os mecanismos forem eleitorais? Nesse caso, como evitar o risco de estar fomentando um novo absolutismo legitimado por plebiscitos manipulados? Que resultados são compatíveis com os interesses estratégicos básicos dos EUA na região? Será possível combinar a saída estratégica de países-chave e uma redução dos gastos militares com doutrinas de intervenção humanitária universais? Essas questões estão completamente ausentes dos debates sobre a política externa americana no tocante à Primavera Árabe.

Liberdades. Se a Primavera Árabe realmente aumentar a esfera de alcance das liberdades individuais ou, pelo contrário, substituir o autoritarismo feudal por uma nova era de governos absolutistas com base em plebiscitos manipulados e maiorias permanentes com base em seitas, não vamos saber pelas proclamações iniciais dos revolucionários. As forças políticas fundamentalistas tradicionais, fortalecidas por alianças com revolucionários radicais, ameaçam dominar o processo, ao passo que os elementos das redes sociais que determinaram o início dos movimentos estão sendo marginalizados.

Os EUA devem incentivar as aspirações regionais a uma mudança política. Mas não é sensato buscar um resultado equivalente em cada país, e na mesma velocidade. Os EUA também atenderão a seus valores, talvez de modo mais eficaz, oferecendo conselhos de modo mais reservado em vez das declarações públicas que provavelmente produzirão a sensação de assédio. Não se trata de abdicar dos princípios para adequar a posição americana de acordo com cada país e colocá-la em sintonia com outros fatores relevantes; na verdade, essa é a essência de uma política externa criativa.

Por mais de 50 anos, a política americana no Oriente Médio tem sido orientada por diversos objetivos básicos de segurança; impedir que qualquer potência na região tenha hegemonia; garantir o livre fluxo de recursos energéticos, ainda vitais para a economia mundial operar; e obter, pela intermediação, uma paz durável entre Israel e seus vizinhos, incluindo um acordo com os palestinos. Na década passada, o Irã tornou-se o principal desafio a esses objetivos. Esses interesses não ficaram abolidos pela Primavera Árabe e sua adoção tornou-se mais urgente. Um processo que acaba com governos regionais frágeis demais ou muito antiocidentais deve suscitar as preocupações estratégicas americanas, independentemente dos mecanismos eleitorais pelos quais aqueles governos chegam ao poder. Dentro desses limites gerais, a política americana tem um espaço significativo para a criatividade na promoção dos valores democráticos e humanitários.

Os EUA precisam estar preparados para lidar com governos islâmicos democraticamente eleitos. Mas também estão livres para insistir nos princípios básicos da política externa tradicional de modo a condicionar sua posição sobre o alinhamento de seus interesses às ações do governo em questão.

A conduta dos EUA durante as revoluções árabes até agora foi bem-sucedida, evitando se tornar um obstáculo às transformações revolucionárias. Mas esse é apenas um componente de uma estratégia bem-sucedida. No final, a política adotada pelos EUA também será julgada segundo o que resultar da Primavera Árabe, ou seja, se os novos Estados terão mais responsabilidade em relação à ordem internacional e às instituições humanitárias. /HENRY KISSINGER, THE WASHINGTON POST – O Estado de S.Paulo – TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

3 abril, 2012 às 21:27

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Categoria: Artigos

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