Vale tudo por Lulilma (editorial do Estadão)

Bem que ele avisou. “Eleger a Dilma é a coisa mais importante do meu governo”, disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no congresso do PT que em fevereiro passado celebrou a candidatura da ainda ministra da Casa Civil. E, caso algum companheiro, ou quem quer que seja, não tenha captado a mensagem em toda a sua amplitude, esclareceu: “Eleger a Dilma não é secundário para o presidente da República, é a coisa prioritária na minha vida neste ano.” Note-se a confluência entre o cargo e a pessoa, numa admissão involuntária, mas que não deixa o menor espaço para mal-entendidos, do atrelamento do governo em geral e da Presidência da República em especial à prioridade número um do seu titular no período final do seu mandato.

Lula se comparou certa vez à “metamorfose ambulante” de Raul Seixas, para explicar a sua mutação política. Mas, em face da sucessão, a coerência de seus atos com as suas palavras é total. Ele tem feito e continuará a fazer o muito que está a seu alcance, no exercício do poder, para realizar a anunciada coisa mais importante do seu governo. E, se nada o tolher e ele for bem-sucedido, poderá dizer, parafraseando um afamado político paulista, que quebrou todos os limites éticos na condução do Estado, mas fez o seu sucessor. E ninguém terá o direito de se surpreender com a transformação do Executivo em simples apêndice da candidatura Dilma – assim como ela própria é apêndice de seu patrono.

A única pedra no caminho de Lula é o Judiciário, que já o multou duas vezes pela descarada campanha em favor da então ministra, fabricando eventos públicos para exibi-la aos eleitores (40% dos quais, apesar de tudo, ainda não sabem que ela é a escolhida do presidente). Mas do alto da sua soberba – que o levou a dizer em um evento do PC do B, na quinta-feira, que, “se depender dos times que estão em campo, nunca tivemos (sic) uma campanha tão fácil” – resolveu peitar a Justiça. Nesse que foi o primeiro ato político pró-Dilma de que participou desde que ela deixou o governo, Lula afirmou que fará, sim, campanha de rua para a sua apadrinhada porque “não podemos ficar subordinados, a cada eleição, ao juiz que diz o que a gente pode ou não fazer”.

O presidente – isto já é bem sabido – gosta de reiterar as suas assertivas. À maneira da fala aos companheiros do PT, quando achou que não bastava dizer que eleger a sua candidata é a coisa mais importante do seu governo, na festa do PC do B ele não se deu por satisfeito ao proclamar a sua independência do Judiciário. Sem a mais remota inclinação para a autocensura, acrescentou à promessa da insubordinação uma investida contra o Estado de Direito, ao disparar: “Não podemos permitir que o nosso destino fique correndo de tribunal para tribunal.” Já houve neste país quem tivesse dito “a lei, ora a lei”. Mas Lula, diferentemente do autor da tirada infeliz, Getúlio Vargas, se gaba de ser democrata.

Além da arrogância de se imaginar acima de quaisquer limites, como os velhos oligarcas da política nacional com quem se associou, e da obsessão com a suprema prioridade de sua vida este ano, Lula tem um motivo real para entrar com tudo na campanha – ou melhor, para não deixar Dilma solta por aí. O motivo, evidentemente, é ela mesma. Os dois dias que passou em Minas foram uma sucessão de vexames. Fez comentários insultuosos aos presos políticos de Cuba, foi hostil com o repórter que se referiu ao Estado como “berço tucano” e, sem a menor consideração com o provável candidato da coligação lulista ao governo mineiro, o ex-ministro Hélio Costa, do PMDB, pregou a dobradinha Dilmasia (ou Anastadilma): ela para presidente e o tucano Antonio Anastasia, ex-vice de Aécio Neves, para governador.

O candidato rejeitou com elegância o esquema por não ter “amparo na realidade”. Por sua vez, um agastado Hélio Costa retrucou que a candidata poderá “morrer pela boca” e que, chapa por chapa, Serrélio seria uma boa alternativa. Decerto isso não está nas cartas a esta altura do jogo.

O que está é a crescente suspeita dos partidos da base aliada de que a construção de uma liderança política acreditada não é o forte de Dilma. A pessoa, desconfiam, simplesmente não é do ramo. É a servidão da candidatura Lulilma.

(publicado no Estadão em 11 de abril de 2010)

11 abril, 2010 às 22:34

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Categoria: Artigos

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