Viagem para as Falklands

Fotografias: Claudio Mafra

Em maio de 1982 eu estava na casa de Miro Teixeira aonde se discutia se ele deveria se candidatar ao Senado, ou ao governo do Rio. Tive a atenção desviada para uma mulher que circulava entre as pessoas apresentando uma folha de papel que era imediatamente assinada. Falava muito baixinho, e caminhava curvada para não atrapalhar a visão dos que acompanhavam o debate. Quando chegou minha vez, perguntei :  “O que é isso ?” Ela sussurrou: “ Uma declaração, um abaixo-assinado protestando contra a Inglaterra por causa das Ilhas Malvinas”. Respondi mais baixo ainda: “Eu sou a favor da Inglaterra , a favor da guerra para que ela recupere as Ilhas.” Pano rápido.

Bem, a invasão argentina havia sido em 2 de maio, e por aqueles dias a esquadra inglesa já estava em alto mar dirigindo-se para o combate. Navegava lentamente para dar tempo às negociações do Secretário do Departamento de Estado do presidente Reagan, general Alexander Haig.   O general procurava desesperadamente evitar o conflito, e  fazia uma extenuante ponte aérea, viajando sem descanso para se encontrar com Thatcher, Reagan e o general Galtieri. Eu torcia para que ele fracassasse. Muitas vezes temi que se chegasse a um acordo, mas hoje sabemos que era impossivel devido à intransigência de Galtieri, que por duas vezes se apresentou bêbado para conversar com Haig.

Fiquei impressionado com o comportamento da nossa esquerda. De uma hora para a outra o ódio contra os Estados Unidos e Inglaterra se sobrepunha ao costumeiro horror pela “cruel ditadura militar na Argentina”.  Falava-se em americolatinidade, em colonialismo britânico, e outras bobagens e anacronismos.  NINGUÉM disse uma palavra a respeito do que pensavam os ilhéus. Um fenômeno revelador do mais completo totalitarismo. Os que seriam diretamente afetados não tinham o direito de expressar sua opinião. É assim até hoje. Publica-se que o primeiro-ministro inglês insiste em que se ouça a vontade dos que moram nas ilhas, mas é somente a notícia porque  a mídia não pode prescindir dela. Não se vê um mísero comentário de apoio entre articulistas e editorialistas. A grande maioria está do lado de Cristina Kirchner, e os que discordam preferem ficar calados.

Trinta anos depois viajei para as Ilhas. Comecei com o trecho S.Paulo – Santiago do Chile ( 3 horas e 15 minutos),  depois Santiago até  Punta Arenas ( 3 horas), e com mais 1 hora e meia  o avião da LAN cruza o espaço aéreo argentino e aterrissa em Port Stanley,  a capital das Falklands. (Cristina Kirchner andou ameaçando proibir essa travessia). O lugar é lindíssimo. Darwin disse ser uma paisagem desoladora, mas no sentido de “desolação magnífica”. Grandes braços de mar entrando pela terra adentro, ninguém no horizonte, estradas pavimentadas com cascalho, cidades que de fato são apenas três ou quatro casas, a sensação de liberdade, de amplidão, a maravilhosa solidão que nos remete para um sentimento profundo de espiritualidade. Aluguei um Mitsubishi 4X4  ( 40 libras por dia , 120 reais) e rodei confortavelmente centenas de quilômetros.

A população das ilhas não ultrapassa 3.500 habitantes. Visitei  os campos de batalha, os cemitérios argentino e inglês, adorei Stanley a beira-mar, um primor de cidadezinha com suas casas coloridas e o tipo de comportamento humano que só se encontra em pequenos vilarejos inglêses. Assisti  com grande emoção e alegria ao culto na igreja anglicana do século 19, cantei os hinos, vi as crianças brincando entre os corredores durante o sermão, a simplicidade das famílias como se fossem peregrinos em comunhão com Deus, os corações leves, o coro de meninos e suas lindas vozes. Depois de terminada a cerimônia vieram o pastor e diáconos me cumprimentar, felizes pelo visitante inesperado que mal disfarçava estar comovido. Fui convidado para chá e bolinhos, na parte de trás da igreja.

Existem dois hotéis, o Malvina e o Waterfront, além de muitas guest houses. O Malvina ( que nome!) é o melhor – diária de 120 libras. O ambiente é típicamente britânico, mas as camareiras são chilenas. Argentinos não são bem vistos, é claro. Depois de escaparem do pesadelo, a última coisa que os ilhéus desejam é a companhia de um deles. O perigo de outra invasão é nulo. O terrivel pronunciamiento de Galtieri: “os habitantes das ilhas encontram-se agora sob a proteção da bandeira argentina”, está definitivamente enterrado. Foi construído um quartel imenso aonde supõem-se estejam 1.800 soldados britânicos. Além disso, me contaram que estava chegando um super destroyer com capacidade de fogo como nunca se viu igual no extremo-sul das Américas.

A vitória não foi tão fácil. Muito pelo contrário. Os aviões argentinos estavam apenas a 600 km de seus campos de pouso, e podiam bombardear a frota britânica, dar meia volta, e se reabastecer para novo bombardeio. Enquanto isso os inglêses tinham que desesperadamente proteger dos misseis francêses Exocets seus dois porta-aviões, o Invincible e o Hermes,  caso contrário ficariam sem aviação no teatro da guerra, tornando impossivel o desembarque das tropas. Seus bombardeiros de longo alcance vinham de muito longe, das Ilhas Ascenção. A invasão aconteceu no dia 2 de maio ( a ilha Georgia do Sul também foi invadida), e a rendição incondicional do general Menendez em 18 de junho. Não vou descrever a batalha. Dois movimentos políticos me parecem particularmente importantes. Margaret Tatcher conseguiu do presidente socialista francês, François Miterrand, a suspensão da venda de Exocets para o Peru, porque certamente iriam parar em mãos argentinas, e  o Chile, do general Pinochet, ajudou a Inglaterra através de seus serviços de Inteligência  (Um dos fatos mais impressionantes da guerra foi o afundamento do novíssimo destroyer britânico, o HMS Sheffield, por um Exocet lançado de um caça argentino).  O governo Reagan, cuja indecisão em cooperar irritou Tatcher, forneceu coordenadas sobre a localização de navios argentinos. Os detalhes ainda são considerados segredos de estado americano.

Para alguns esclarecimentos sobre o atual movimento a respeito de se entregar as Falklands para a Argentina o leitor pode clicar em cima dos títulos dos artigos:  Os fascistas ganhadores do prêmio Nobel da Paz que apoiam a Argentina    ,   O Grande General Pinochet ( Margaret Thatcher)  .

Existem duas praias lindas, de areias branquíssimas, em porto Stanley. Infelizmente uma delas foi tão minada pelos argentinos que se tornou impossivel entrar na água. Parece que as marés impedem a completa desativação das minas. Mas são tantos os lugares bonitos que não precisamos lamentar a perda deste. A última novidade é que os habitantes das Falklands  resolveram realizar um referendo no primeiro semestre de 2013. Com isto esperam acabar de uma vez por todas com a história de que seus sentimentos em relação à Argentina estão divididos. Não será surpresa se alcançarem 100% a favor de continuarem súditos de Sua Majestade, a menos que algum desmancha-prazeres decida votar pelos hermanos.

 

Port Stanley

  O hotel Malvina

Placa com nome de soldados inglêses colocada no monte Tumbledown, lugar do último combate, já pertinho de Port Stanley.

Um ponto de resistência dos argentinos no monte Tumbledown

 
 
 

 O cemitério argentino

O dificil ponto de desembarque inglês.

O monte Tumbledown, onde os argentinos sofreram sua última derrota. O general Menendez assinou a rendição incondicional

cemitério inglês com vítimas militares e civís

o cemitério inglês ao lado do ponto de desembarque de suas tropas

o imenso quartel britânico

 

21 junho, 2012 às 20:37

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Categoria: Artigos

Comentários (6)

 

  1. Osmar disse:

    Sensacional seu post e lindas as fotos, Mafra!! Vou repassá-los. Obrigado! Grande abraço. Osmar.

  2. Marco Balbi disse:

    Sensacional! Parabéns!

  3. Nivaldo disse:

    Mafra, acessei o post pela análise política e de quebra ainda tive o prazer de ver essas lindas fotos. Fiquei até com vontade de conhecer pessoalmente essa pitoresca ilha.
    abç

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